Ode ao Tudo e ao Nada que nos Cabe
Eu confesso que vivi para tocar a casca do mundo.
Não vim para as definições de dicionário,
vim para o que pulsa na uva, no minério e no pranto.
Escrevo com a tinta que o mar empresta às pedras,
uma escrita de algas e de raízes que não pedem licença para romper o asfalto.
Olho para o Irã e para as torres de vidro do Norte,
e vejo o mesmo metal que quer ser espada,
esquecendo-se de que sua essência é ser solo, ser arado, ser abraço.
A evolução da Terra não se conta em séculos de ferro,
mas no modo como o orvalho decide pousar sobre a farda do soldado
sem distinguir a bandeira, apenas ungindo a vida.
Eu canto a espiritualidade dos sapatos gastos,
o sagrado que habita o pão partido e a mão que semeia no escuro.
Somos uma costura de estrelas e de lama,
um breve incêndio entre dois silêncios.
E se a guerra ruge lá fora, eu respondo com o trigo;
se o ódio se arma, eu me desarmo no verso.
Porque o mundo é vasto como uma cebola:
camadas de sofrimento, camadas de ouro, camadas de vento.
E no centro de tudo, o que resta?
Resta o homem, esse capitão de navio sem porto,
que entre um abismo e outro, insiste em chamar a vida de "minha".
Eu pertenço a tudo o que vibra,
ao que cai e ao que insiste em florescer contra a correnteza.