SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

O Aquário de Vidro e Chuva

A noite não caiu; ela desabou, líquida e pesada, sobre o asfalto que agora brilha como o dorso de uma baleia ferida. Daqui, da minha mesa de canto — este pequeno território de madeira e mágoas acumuladas —, o mundo parece um filme em câmera lenta, rodado atrás de uma vidraça embaçada pelo hálito da cidade.

As pessoas passam. São vultos apressados, náufragos de guarda-chuvas pretos que tentam manter seco o que já está encharcado por dentro. Elas vão e vêm, cruzando-se sem se olhar, como se o destino fosse apenas um ponto de fuga em uma calçada qualquer. Para onde corre quem não tem para onde voltar?

Na mesa ao lado, o copo de alguém reflete a luz neon do letreiro lá fora: um azul elétrico que pisca, cansado, como um coração com arritmia. O barulho da chuva no telhado de zinco é a única música honesta que sobrou. É o som do tempo batendo na nossa cara, lembrando que somos apenas passageiros de um bonde que não faz paradas para explicações.

Há uma beleza sombria nesse ir e vir sem norte. Na fumaça que sobe de um cigarro solitário, na marca de batom num copo abandonado, na risada alta que tenta, em vão, abafar o trovão que ruge ao longe. Somos todos personagens de um livro que ninguém terminou de escrever, sentados em bares de esquina, esperando que a chuva lave o que a alma não deu conta de carregar.

A noite é um oceano escuro, e este bar, uma pequena balsa iluminada onde a gente ancora o cansaço antes de mergulhar, outra vez, no anonimato da próxima rua.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 11/03/2026
Alterado em 16/03/2026
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