SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

Não sou quem penso, nem quem me vê passar.
Sou apenas o intervalo entre o que desejo
E o que o cansaço me permite sonhar.
Um vulto que se olha, mas não se vê no espelho,
Um eco de uma voz que se esqueceu de falar.

A tarde cai sobre a cidade como um peso
De uma saudade que não tem objeto nem local.
Sinto-me um estrangeiro no meu próprio gesto,
Alguém que, estando vivo, já se sente morto
Por carregar no peito o universo e o resto.

Quem me dera ser a pedra da calçada,
Que não sente a chuva nem o sol que a consome.
Mas sou consciência de ser coisa nenhuma,
Um título de livro que perdeu o nome,
Uma onda desfeita em cansaço e espuma.

Tudo é símbolo. Tudo é desassossego.
Escrever é o modo de não estar aqui.
Finjo que sinto para que o sentir seja
Apenas a moldura do que nunca vivi,
Na alma que se cansa de tudo o que deseja.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 13/03/2026
Alterado em 16/03/2026
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