

O ÓRFÃO DA IDEOLOGIA Vejam o Astrogildo . O Astrogildo é o homem que acorda às cinco da manhã, com o rosto amassado pelo travesseiro de penas de galinha e o hálito de quem mastigou o próprio desespero durante o sono. Ele olha para o teto de Brasilit e espera. Espera o quê? O milagre. O Estado. O Salvador de Palanque. Astrogildo é o viciado em muletas que a sociologia de botequim já produziu. Se a direita acena com um fuzil e um salmo, ele se emproa, descobre um patriotismo de repartição e quer fuzilar o vizinho que ouve samba. Se a esquerda sopra uma promessa de picanha metafísica e um amanhã de algodão-doce, ele chora, vira mártir de mesa de bar e quer estatizar até a lanchonete da esquina. Pobre Astrogildo! É o tolo de estimação da política. O sujeito que é triturado pela realidade todos os dias, mas volta para casa acreditando na pureza da propaganda eleitoral. Ele não percebe que, para o palanque, ele não é homem: é suco. É bagaço. É um número que fede a suor no trem da Central. O drama do suburbano sem mente aberta é essa fome de ser gado. Ele quer um dono porque tem medo da solidão de pensar por si mesmo. Ele se entrega às paixões ideológicas com a mesma fúria com que um torcedor de várzea xinga a mãe do juiz. Ele não vê que a direita o quer como bucha de canhão e a esquerda o quer como peça de museu da miséria. A redenção? Há, a redenção não está no Diário Oficial. A salvação do Astrogildo começa quando ele olha para o espelho, entre uma colherada de farofa e um gole de café frio, e percebe a verdade nua e obscena: o Messias não vem. O Partido não se importa. O Estado é um gigolô que cobra caro pelo beijo que nunca dá. No dia em que o homem do subúrbio descobrir que sua única soberania está na própria inteligência, e não na sigla que ele lambe com os olhos, os deuses da política tremerão. Até lá, ele continuará sendo apenas isso: um cadáver adiado que vota, esperando que o carrasco tenha pena da vítima. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 16/03/2026
Alterado em 16/03/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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