

O arrependimento, para Nelson, era uma encenação de domingo; para Neruda, uma ferida que floresce. No silêncio do escritório, o brasileiro interrompeu o barulho da máquina de escrever: — O arrependimento, Pablo, é o luxo do covarde. O sujeito peca com a fúria de um animal e depois chora com a delicadeza de uma noviça. É uma mentira que contamos a nós mesmos para podermos pecar de novo na segunda-feira. O canalha autêntico não se arrepende; ele se lambuza na própria infâmia e chama isso de destino. Neruda, ajustando o corpo pesado na cadeira, olhou para as mãos como se nelas visse o mapa de suas faltas. O arrependimento pode ser o orvalho que limpa a estátua. É a dor de saber que a mulher amada esperava o sol e nós entregamos apenas a sombra. Não é teatro, é o peso da ausência. — Bobagem! — reagiu Nelson, os olhos brilhando de cinismo. — O homem só se arrepende quando a satisfação acaba e sobra o tédio. O arrependimento é o tédio fantasiado de virtude. Amamos a culpa porque ela nos dá a ilusão de que somos importantes para Deus. Neruda suspirou, sentindo o cheiro de maresia vindo de longe. Mas prefiro o homem que chora por ter ferido a pétala do que aquele que se orgulha de ser o espinho. O amor sem a tristeza do erro é um jardim de plástico. Nelson deu um sorriso de canto de boca, voltando às teclas: Esse, meu caro poeta, é o único que entendeu a tragicomédia da carne. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 16/03/2026
Alterado em 16/03/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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