SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

O arrependimento, para Nelson, era uma encenação de domingo; para Neruda, uma ferida que floresce.

No silêncio do escritório, o brasileiro interrompeu o barulho da máquina de escrever:

— O arrependimento, Pablo, é o luxo do covarde.

O sujeito peca com a fúria de um animal e depois chora com a delicadeza de uma noviça.

É uma mentira que contamos a nós mesmos para podermos pecar de novo na segunda-feira.

O canalha autêntico não se arrepende; ele se lambuza na própria infâmia e chama isso de destino.

Neruda, ajustando o corpo pesado na cadeira, olhou para as mãos como se nelas visse o mapa de suas faltas.
— Você é duro, Nelson.

O arrependimento pode ser o orvalho que limpa a estátua.

É a dor de saber que a mulher amada esperava o sol e nós entregamos apenas a sombra. Não é teatro, é o peso da ausência.

— Bobagem! — reagiu Nelson, os olhos brilhando de cinismo. — O homem só se arrepende quando a satisfação acaba e sobra o tédio.

O arrependimento é o tédio fantasiado de virtude.

Amamos a culpa porque ela nos dá a ilusão de que somos importantes para Deus.

Neruda suspirou, sentindo o cheiro de maresia vindo de longe.
— Talvez.

Mas prefiro o homem que chora por ter ferido a pétala do que aquele que se orgulha de ser o espinho.

O amor sem a tristeza do erro é um jardim de plástico.

Nelson deu um sorriso de canto de boca, voltando às teclas:
— Pois eu prefiro o vizinho que trai, sofre, se ajoelha, pede perdão e, dez minutos depois, está assobiando na janela.

Esse, meu caro poeta, é o único que entendeu a tragicomédia da carne.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 16/03/2026
Alterado em 16/03/2026
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