SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

Astrogildo não apenas aceita o jugo; ele o gourmetiza.

Para ele, cada nova restrição de liberdade é um "desafio de resiliência" e cada escândalo de corrupção é "a complexidade inerente à alta política".

Ele não é um cidadão, é um fã devoto que confunde negligência estatal com charme misterioso.

Quando o Poder decide, por um capricho de fim de tarde, que o oxigênio agora terá ágio, Astrogildo prende a respiração com um sorriso azulado nos lábios.

"É pelo bem maior", ele pensa, enquanto seus pulmões imploram por um ar que ele acredita não merecer.

Ele vê o governante como aquele amante tóxico que não liga no dia seguinte, e em vez de indignação, Astrogildo sente uma ansiedade deliciosa: "O que será que eu fiz de errado para ser tão ignorado?".

O personagem de Astrogildo é o arquétipo do masoquista cívico.

Ele lê o Diário Oficial como quem lê o horóscopo, buscando sinais de que sua submissão está sendo notada.

Se a carga tributária aumenta, ele aperta o cinto até as costelas estalarem e exibe a cintura fina como prova de sua "disciplina fiscal doméstica".

Para Astrogildo, a bota que lhe pisa o pescoço não é um instrumento de opressão, é um "massageador cervical de alta pressão".

Ele desenvolveu uma síndrome de Estocolmo institucional tão profunda que, se o Poder um dia decidisse ser gentil, Astrogildo entraria em crise de abstinência.

Ele precisa do chicote para se sentir orientado; precisa do descaso para se sentir parte de algo grandioso e inalcançável.

Ele é o homem que agradece pelo guarda-chuva furado que o governo lhe vendeu a preço de ouro, enquanto se afoga na enxurrada de promessas não cumpridas, louvando a "textura refrescante da água".

No grande baile das nações, enquanto outros países tentam conduzir o próprio destino, Astrogildo prefere ser o tapete por onde a autoridade desfila.

Ele se deita no chão, estica as fibras da alma e se orgulha de cada mancha de lama deixada pelo solado do comando

Afinal, para um coração tão profundamente submisso, a marca de um sapato no peito é a única condecoração que realmente importa.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 16/03/2026
Alterado em 16/03/2026
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