

Astrogildo não apenas aceita o jugo; ele o gourmetiza. Para ele, cada nova restrição de liberdade é um "desafio de resiliência" e cada escândalo de corrupção é "a complexidade inerente à alta política". Ele não é um cidadão, é um fã devoto que confunde negligência estatal com charme misterioso. Quando o Poder decide, por um capricho de fim de tarde, que o oxigênio agora terá ágio, Astrogildo prende a respiração com um sorriso azulado nos lábios. "É pelo bem maior", ele pensa, enquanto seus pulmões imploram por um ar que ele acredita não merecer. Ele vê o governante como aquele amante tóxico que não liga no dia seguinte, e em vez de indignação, Astrogildo sente uma ansiedade deliciosa: "O que será que eu fiz de errado para ser tão ignorado?". O personagem de Astrogildo é o arquétipo do masoquista cívico. Ele lê o Diário Oficial como quem lê o horóscopo, buscando sinais de que sua submissão está sendo notada. Se a carga tributária aumenta, ele aperta o cinto até as costelas estalarem e exibe a cintura fina como prova de sua "disciplina fiscal doméstica". Para Astrogildo, a bota que lhe pisa o pescoço não é um instrumento de opressão, é um "massageador cervical de alta pressão". Ele desenvolveu uma síndrome de Estocolmo institucional tão profunda que, se o Poder um dia decidisse ser gentil, Astrogildo entraria em crise de abstinência. Ele precisa do chicote para se sentir orientado; precisa do descaso para se sentir parte de algo grandioso e inalcançável. Ele é o homem que agradece pelo guarda-chuva furado que o governo lhe vendeu a preço de ouro, enquanto se afoga na enxurrada de promessas não cumpridas, louvando a "textura refrescante da água". No grande baile das nações, enquanto outros países tentam conduzir o próprio destino, Astrogildo prefere ser o tapete por onde a autoridade desfila. Ele se deita no chão, estica as fibras da alma e se orgulha de cada mancha de lama deixada pelo solado do comando Afinal, para um coração tão profundamente submisso, a marca de um sapato no peito é a única condecoração que realmente importa. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 16/03/2026
Alterado em 16/03/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
|