

O HUMANO NÚ O horizonte ainda é um borrão de cinza e promessa. Antes de sermos números, cidades ou fronteiras, fomos apenas um fôlego curioso diante do fogo. Penso naquele primeiro homem, naquela primeira mulher, cujos olhos capturaram a luz de uma estrela e, pela primeira vez, não viram apenas um ponto brilhante, mas um mistério. O que sentiam quando o silêncio do mundo era absoluto, quebrado apenas pelo vento e pelo bater do próprio coração? Não havia o peso do "ter", apenas a urgência do ser. Caminhávamos descalços, lendo a terra como se fosse um mapa de pele, e o céu era o nosso único teto, vasto e aterrorizante. Às vezes, no meio do caos de metal e asfalto de hoje, sinto um estalo, um atavismo. É um desejo de voltar àquela clareira original, onde a mão humana tocou a parede da caverna e deixou uma marca de tinta e sangue — um grito mudo dizendo: "Eu estive aqui". Éramos pequenos, frágeis, mas carregávamos o fogo dentro de nós antes mesmo de dominá-lo fora. Onde foi que perdemos aquele olhar de espanto? Quando foi que a aurora deixou de ser um milagre diário para se tornar apenas o despertador de uma rotina? Talvez a nossa verdadeira evolução não seja ir para as estrelas, mas conseguir reencontrar aquela pureza primitiva que nos fazia sentir parte do todo, e não donos dele. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 22/03/2026
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