SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

A SOLIDÃO DOS CEM MIL SEGUIDORES

A luz paralisada do meio-dia caía sobre o asfalto como uma maldição.

Na mesa do botequim, o sujeito, um desses que carregam a tragédia nacional no vinco da calça, olhava o celular com o pavor de quem vê o próprio cadáver.

— O Brasil, meu caro, é uma viúva que trai no velório — sentenciou ele, limpando o suor da testa com um lenço que já vira dias melhores.

Nelson diria, com aquela sua voz de profeta de subúrbio, que hoje não se morre mais de amor; morre-se de notificação.

O brasileiro atual vive num eterno Fla-Flu de elevador, onde o vizinho não é um semelhante, mas um réu em potencial.

Olhamos para o lado e não vemos um rosto, vemos um algoritmo de má vontade.

Antigamente, o adultério tinha uma dignidade bíblica.

Havia o drama, o punhal, o flagrante sob o luar de Paquetá.

Hoje, a traição é um print seco, uma curtida por engano na foto de 2019, uma prova digital que nem o mais sublime dos canalhas consegue negar.

Perdemos a capacidade do pecado grandioso para mergulhar na pequena canalhice do "visto por último".

E o complexo de vira-lata?

Ah, esse continua lá, firme, mas trocou a sarna pela grife falsificada.

O brasileiro viaja para Miami e volta falando com um sotaque de quem nunca comeu uma coxinha na vida, enquanto, no fundo da alma, chora pelo feijão com arroz da infância.

Somos um povo que quer ser o que não é, para impressionar quem não conhece, usando um dinheiro que ainda vai pedir emprestado.

Nas redes sociais, todos são santos de vitrine.

O sujeito posta uma frase de efeito sobre a empatia enquanto chuta o cachorro do zelador.

É a "virtude de aplicativo".

Ninguém é mau no Instagram; a maldade ficou exilada no grupo de WhatsApp da família, onde tios e sobrinhos se estraçalham por causa de um deputado que nem sabe que eles existem.

O Brasil é, em suma, uma imensa e ruidosa sala de espera para um milagre que nunca vem.

E se vier, a gente ainda vai reclamar que o milagre não teve o engajamento esperado.

Como diria o Profeta: "A televisão matou a janela".

E o celular, meus amigos, matou o resto.

Sobrou apenas o olhar de soslaio, o medo do cancelamento e essa fome eterna de ser amado por um desconhecido qualquer, enquanto a vida real passa, muda e nua, pedindo um pouco de café e um tiquinho de silêncio.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 22/03/2026
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