SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

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NO MEIO DO CAMINHO TINHA UMA SEGUNDA-FEIRA

"Domingão" agora é outro.

Sem os fogos de artifício, as bailarinas sincronizadas ou o "ô louco, bicho".

O encerramento do domingo brasileiro perdeu o brilho do auditório e ganhou a iluminação fria da tela do celular, onde a realidade se apresenta sem filtro e sem intervalo comercial.

Quando a música do Fantástico sobe, não é mais um chamado para ver os gols da rodada, mas o gongo que anuncia o fim da trégua.

O sofá, que durante a tarde foi refúgio, começa a parecer desconfortável.

É o peso da segunda-feira que já se sentou ao nosso lado, trazendo a planilha de gastos, o preço do combustível no posto da esquina e o boleto que vence amanhã.

O brasileiro, esse equilibrista profissional, troca o entretenimento pela sobrevivência.

A "realidade nua e crua" não tem roteiro ensaiado: é a marmita que precisa ser montada, o despertador que não aceita desaforo e o transporte público que, ao contrário do palco da TV, está sempre superlotado.

Diferente das "Videocassetadas", os tombos da semana real machucam de verdade.

Mas há algo de cinematográfico na nossa resiliência.

Encerramos o domingo não com aplausos gravados, mas com um suspiro fundo, uma oração silenciosa ou um café reforçado.

O show do Faustão acabou, mas o espetáculo da vida continua.

E nele, o brasileiro é o único protagonista que entra em cena sem saber as falas, mas com a certeza de que, de um jeito ou de outro, vai fazer o público – e a vida – aplaudir de pé na sexta-feira.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 22/03/2026
Alterado em 22/03/2026
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