

JORGE, O INVENCÍVEL O despertador toca às 5h15, mas o sono já tinha ido embora às 4h, levado pelo cálculo mental dos juros do cheque especial. Seu Jorge levanta com o peso de quem carrega o PIB do Brasil nas costas, mas sem o bônus dos ministros. O café é coado com o resto do pó da semana, enquanto ele olha para o monte de boletos sobre a mesa da cozinha – aquela "cordilheira de papel" que teima em crescer, independentemente da estação. Ele sai de casa com o fone de ouvido. De um lado, o rádio prega a salvação econômica pela via da "justiça social"; do outro, o podcast garante que a "mão invisível do mercado" vai organizar sua conta bancária se ele apenas trabalhar enquanto eles dormem. Jorge suspira. Ele já votou no sol e na lua, já fez o "L", já fez o "B", e a única coisa que continua fazendo é o "D" de dívida. No ônibus lotado, ele observa os passageiros. Estão todos ali, esperando o "Grande Plano", o "Milagre da Canetada", a "Redenção nas Urnas". O brasileiro médio vive num eterno estado de espera: espera o décimo terceiro, espera o desenrola, espera a picanha, espera a liberdade econômica. Vivemos de promessas de Messias que usam gravata ou camiseta de sindicato, mas que nunca pegam o mesmo ônibus que o Jorge. A revelação vem no meio de um engarrafamento na Avenida Brasil. Jorge olha para o próprio reflexo no vidro empoeirado do ônibus. Ele vê as mãos calejadas, os olhos cansados, mas vivos. Percebe que, enquanto ele se definir pela cor do partido ou pela promessa do profeta da vez, ele será apenas um número numa planilha de votos. O milagre não é o perdão da dívida que o governo promete e nunca cumpre sem cobrar o triplo depois. O milagre é o fato de que Jorge, apesar de tudo, ainda está de pé. A força que ele busca no palanque está, na verdade, na sua capacidade de acordar e inventar a vida todo santo dia. Quando Jorge entende que ele é o motor, e não apenas o combustível, a política deixa de ser uma religião e passa a ser o que realmente é: um serviço mal prestado. Ele para de esperar o herói de Brasília e começa a confiar no herói que faz a barba no espelho de manhã. A dívida ainda está lá, mas o medo de quem ele é sumiu. Ele descobriu que, enquanto o Brasil não descobrir que o poder emana do povo e volta para o indivíduo, continuaremos sendo inquilinos da nossa própria esperança. Jorge sorri. O boleto vence amanhã, mas hoje, pela primeira vez, ele se sente o dono da própria força Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 23/03/2026
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