SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

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MANUAL DE INSTRUÇÕES PARA ACREDITAR NO IMPOSSÍVEL

O brasileiro é um entusiasta nato do impossível.

A gente não apenas acredita; a gente aposta o 13º salário na probabilidade do milagre, embrulhada num laço de fita de "agora vai".

Se o Papai Noel descesse de trenó na Avenida Paulista em pleno meio-dia de dezembro, o brasileiro não estranharia as renas voando no meio da poluição.

Ele apenas gritaria: "Aí, Noel! Traz um Pix de presente e vê se não esquece de declarar no Imposto de Renda!".

Nossa fé é uma mistura de desespero com amnésia seletiva.

Acreditamos que o político vai cumprir a promessa feita no horário eleitoral, que o regime da sopa de repolho vai nos deixar com o abdômen do Cauã Reymond em três dias e, principalmente, que o "vê se aparece" no final de uma conversa de elevador é um convite genuíno para um churrasco.

O brasileiro médio vive num eterno estado de véspera de Natal.

Ele olha para o boleto vencido com a mesma esperança com que a criança olha para a árvore: esperando que, por um golpe de sorte ou uma intervenção divina do "jeitinho", aquilo se transforme em outra coisa.

Somos o único povo que acredita na "promoção" que aumentou o preço na semana anterior, no "boa noite" do telejornal que esconde o apocalipse e na ideia de que, se a gente ignorar o barulho estranho no motor do carro, ele vai se consertar sozinho por pura vergonha na cara.

No fundo, a gente acredita em Papai Noel porque a realidade brasileira é pesada demais para carregar sem um pouco de fantasia carimbada em cartório.

A gente sabe que o velho de barba é o vizinho fantasiado, mas, se ele trouxer um panetone e uma promessa de que o ano que vem será "o nosso ano", a gente senta no colo dele e ainda pede selfie.

Afinal, no Brasil, a esperança não é a última que morre.

Ela é a única que sobrevive, rindo da nossa cara enquanto a gente espera o próximo milagre cair pela chaminé — mesmo morando num apartamento sem ventilação.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 23/03/2026
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