

A Prateleira dos "Quase" Todo mundo tem um cemitério particular no fundo do armário. Não é assombrado por fantasmas de filmes, mas por objetos que carregam o peso do que a gente jurou que seria e não foi. É o violão com uma corda arrebentada acumulando pó, o tênis de corrida que só viu o asfalto duas vezes e aquele curso de francês que parou no “enchanté”. O sonho não realizado do cotidiano não é necessariamente a mansão em Mônaco ou o prêmio Nobel; é o pequeno fracasso doméstico. É a vontade de ter uma horta que virou um vaso de alecrim seco. É o livro de quinhentas páginas que serve de calço para o monitor. A gente acorda com a ambição de um conquistador romano e vai dormir com a satisfação de quem conseguiu lavar o cabelo. E tá tudo bem. A vida sem máscara é entender que o "eu do futuro" é um personagem de ficção que a gente cria para suportar o "eu do presente". Aquele cara que vai acordar às cinco da manhã, meditar e ser produtivo só existe na nossa cabeça – e na segunda-feira seguinte, a gente o mata de novo com o botão soneca. Esses sonhos mofados são o que nos mantém humanos. Eles provam que a gente ainda tenta, ainda deseja, ainda tem a audácia de achar que a rotina pode ser diferente. O problema não é o sonho que não vingou, é a pressa de se culpar por ser "só" quem se é. No fim, a gente sobrevive entre o que planejou e o que deu pra fazer. O violão continua mudo, a horta continua seca, e a gente continua aqui, tomando um café comum e tentando descobrir o que fazer com o resto do dia. Às vezes, o maior sonho realizado é simplesmente aceitar que a vida, mesmo sem os grandes feitos, ainda tem o seu valor no feijão bem temperado e no sono sem interrupções. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 23/03/2026
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