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"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

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A Ressurreição dos Canalhas

Parem as máquinas!

Abram as cortinas de veludo puído para o segundo ato desse drama de sangue, suor e, finalmente, ouro.

Porque o destino, esse bicheiro de esquina, resolveu pagar a aposta.

Pacheco e Gumercindo não são mais aqueles dois espectros mastigados pelo azar.

Olhem para o terno de linho do Pacheco — um corte que faria um embaixador chorar de inveja.

E o Gumercindo?

O sujeito agora exala um perfume que custa o PIB de uma pequena nação europeia. A vida bateu neles com um gato morto até o bicho miar, mas eles, em vez de morrerem, aprenderam a domar o carrasco.

— Gumercindo, quem diria? — diz Pacheco, girando o gelo no uísque de dezoito anos.

— O banco queria nossa alma em garantia e hoje a gente compra o banco só de pirraça.

A grana veio

Veio em bando, em aluvião, como se o universo estivesse pedindo desculpas por cada chute nas costelas.

O mercado imobiliário, as ações, os negócios escusos que ficaram claros... a conta bancária deles agora tem tantos zeros que parece um colar de pérolas da baronesa.

Mas a vitória maior, a vitória que faz o Nelson Rodrigues suspirar no além, é a vitória do coração.

As ex-mulheres, aquelas que sopravam pragas como se fossem confetes, sumiram na poeira do passado.

Agora, há novas mulheres.

Mulheres que não os olham como estorvos, mas como monumentos.

Pacheco encontrou uma viúva solar, de riso largo e pernas que não terminam nunca, que o ama com uma devoção quase religiosa.

Gumercindo?

Está com uma dama de olhos de esmeralda que o trata como se ele tivesse inventado a roda.

E os filhos... ah, os filhos!

Aqueles que antes olhavam para os pais com o nojo de quem limpa lama do sapato, agora ligam no domingo.

"Papai", dizem eles, com uma doçura súbita, uma ternura que floresceu exatamente quando o testamento ficou recheado.

Mas os velhos não são bobos.

Eles sabem que o amor filial é uma construção que precisa de alicerces de mármore.

— Sabe o que é, Pacheco?

— Gumercindo ajeita a abotoadura de ouro.

— A gente só está bem porque aceitou que a vida é um açougue.

A gente parou de ser a carne e virou o dono da banca.

Estão por cima.

Venceram o cerco.

As cicatrizes continuam lá, mas agora são banhadas a ouro.

Estão vivos, estão ricos e, suprema heresia, estão amados.

A vida, essa cadela, agora abana o rabo e come na mão deles.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 23/03/2026
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