SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

PÁTRIA, FILTROS E FOME

Caminhando pela calçada esburacada de uma metrópole brasileira qualquer, o olhar esbarra em um muro descascado onde alguém, em um ímpeto de esperança ou desabafo, pichou as três palavras de 1789.

Elas parecem cansadas.

No Brasil de hoje, e no mundo que gira febril lá fora, a tríade francesa soa menos como um lema e mais como um quebra-cabeça cujas peças não querem mais se encaixar.

A Liberdade mudou de roupa.

Antigamente, era o grito para abrir as celas; hoje, muitas vezes, é usada como escudo para o isolamento.

"Sou livre para ignorar o outro", dizem as telas.

Virou uma liberdade de consumo, de algoritmo, onde somos livres para escolher entre dez marcas de café, mas escravos da próxima notificação.

No sinal fechado, a liberdade de quem está dentro do carro blindado não cruza com a de quem limpa o para-brisa.

São liberdades que não se falam.

A Igualdade, essa utopia matemática, parece ter virado um gráfico de barras que só sobe para poucos.

Vivemos a era do "mérito" de quem já largou cem metros à frente.

No feed das redes sociais, a igualdade é simulada por filtros, mas na vida real, o CEP ainda dita o destino.

É difícil falar em igualdade quando o prato de um transborda desperdício e o do outro espera por um milagre que a economia não entrega.

E a Fraternidade?

Ah, essa é a mais tímida de todas.

Em tempos de "nós contra eles", o sentido de irmão virou o sentido de bando.

Só sou fraterno com quem reza a minha cartilha, vota no meu candidato ou odeia o que eu odeio.

O "outro" deixou de ser um semelhante para se tornar um obstáculo.

Esquecemos que a fraternidade é o cimento: sem ela, a liberdade vira egoísmo e a igualdade vira burocracia fria.

O momento pede um "reboot".

Não o da revolução das guilhotinas, mas o da revolução do olhar.

Olhar para o lado e perceber que a minha liberdade só faz sentido se ela não for o cativeiro de ninguém.

Que a igualdade não é sermos idênticos, mas termos o mesmo peso na balança da dignidade.

E que a fraternidade é, no fim das contas, a única coisa que impede o mundo de implodir sob o peso do próprio orgulho.

No asfalto quente do Brasil, entre o barulho do motor e o silêncio da fome, essas três palavras ainda esperam para serem lidas não como história, mas como prática.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 23/03/2026
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