

O EVANGELHO SEGUNDO O BAR DO JURANDIR Na calçada do "Bar do Jurandir", onde o reboco é uma lembrança distante e o asfalto derrete sob o sol de março, a geopolítica do bairro se resolve entre um gole de café morno e uma coxinha de procedência duvidosa. — "O problema do Brasil, Jurandir, é que o brasileiro tem fetiche por messias. A gente não quer um presidente, a gente quer um padrinho de batismo que pague a conta da luz," sentenciou Creuza, ajeitando o bob no cabelo com a precisão de um cirurgião cardíaco. Jurandir, atrás do balcão com um pano de prato que já viu dias melhores — provavelmente na década de 90 —, soltou uma risada seca, nelson-rodriguiana. — "Dona Creuza, o ser humano é uma vocação para o abismo. O homem da periferia só acredita em duas coisas: no bilhete premiado e naquele sujeito que aparece na TV em outubro prometendo transformar o córrego em Rio Jordão." Era a crônica da nossa tragédia mística. Ali, entre o cheiro de óleo diesel e a vizinha que espionava a vida alheia pelo buraco da fechadura — uma legítima "adúltera de subúrbio" sem adultério, apenas com má vontade —, o assunto era o Salvador de Outubro de 2026. Faltava pouco. O país, esse imenso "Fla-Flu" de cegos, aguardava o Ungido. — "Dizem que esse novo aí é diferente," arriscou Beto, que passava com uma camisa falsificada de grife, exibindo um otimismo quase pornográfico. "Ele fala grosso, mas tem um olho clínico para o social. Vai dar um jeito na inflação e no preço da picanha." Creuza deu uma tragada imaginária no seu ceticismo. — "Beto, meu filho, você é de uma pureza que beira o mau gosto. Esse aí, em outubro, vai chegar montado num cavalo branco de marketing, com sorriso de dentadura nova e promessas que cabem direitinho no nosso desespero. É o erotismo da esperança, entende? A gente sabe que é mentira, mas quer ser enganado. O brasileiro não quer a verdade; a verdade é feia como um boleto vencido." O diálogo seguia com aquele sarcasmo refinado de quem já sobreviveu a dez planos econômicos e cinco "salvadores" que terminaram em nota de rodapé policial. Havia uma alegria mórbida no ar. A esperança em 2026 não era uma luz no fim do túuunel, era o holofote de um palco de teatro de revista. — "Em outubro," filosofou Jurandir, limpando uma mancha de gordura que parecia o mapa da América Latina, "o Salvador chega. Ele vai abraçar a velha pobre, carregar a criança ranhenta e jurar pela alma da mãe que a periferia será a Suíça. E a gente, com essa alma de Nelson Rodrigues, vai aplaudir de pé, chorando de rir, porque sabemos que, depois da posse, o Salvador vira estatística e a gente volta a discutir se o vizinho tá puxando a internet da gente." Riram todos. Uma risada alta, periférica, que espantava os vira-latas e a melancolia. No fundo, sabiam: o Salvador de 2026 era apenas mais um personagem de uma peça que nunca sai de cartaz. Mas, até outubro, o sonho era grátis. E o café do Jurandir, infelizmente, ainda custava dois reais. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 26/03/2026
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