SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

MIAMI É LOGO ALI, DEPOIS DO ROMBO

A tragédia carioca não pede licença; ela arromba a porta com o hálito de gim e o cinismo de quem já viu o Maracanã chorar.

O "Caso Master" não é apenas um imbróglio de planilhas ou um lapso de compliance; é a prova definitiva de que o Brasil é uma vasta e ensolarada sala de espera para o Juízo Final, onde o cafezinho é servido por um estelionatário de colarinho engomado.

Nelson, do alto de sua nuvem de fumaça de cigarro, diria: "É o adultério da fé pública!".

Porque ali, entre os balanços maquiados e os sorrisos de porcelana da Faria Lima, não houve erro de cálculo.

Houve luxúria.

Uma libido desenfreada pelo dinheiro alheio, aquele desejo obsceno de possuir o capital como se possui a cunhada num domingo de chuva no Grajaú.

O Master é o "bonitinho, mas ordinário" do sistema financeiro.

Por trás da fachada de solidez, pulsa o coração de uma vedete de revista, pronta para fugir com as joias da coroa enquanto o público aplaude o número final.

Jabor, com sua fúria barroca e gesticulante, veria o Master como a metáfora perfeita do nosso "capitalismo de sacristia".

É a classe média alta, essa horda de deslumbrados com o home broker, jogando o futuro dos filhos no triturador de ilusões.

"O Brasil é um país que deu errado no Excel!", gritaria ele, entre um gole de uísque e uma citação de Fellini.

O Master é o nosso delírio tropicalista: queremos ser Suíça, mas temos a alma de um bicheiro da Praça Onze que usa terno de linho para esconder a tatuagem de Nossa Senhora.

É o gozo da fraude, a estética do buraco, o orgasmo de ver o gráfico despencar enquanto o DJ toca house no rooftop.

E Jaguar?

Ah, Jaguar estaria no balcão do bar, desenhando a cena com um traço nervoso e bêbado.

Ele veria os diretores do banco como ratos de gravata borboleta, brindando com um champanhe que tem gosto de querosene.

O cartum seria simples: um tubarão banguela tentando morder uma nota de cem reais presa num anzol de ouro.

"O problema do Brasil", diria o mestre, pedindo a saideira, "é que até a nossa corrupção perdeu o charme.

No meu tempo, a gente quebrava o banco e depois ia pro cabaré.

Hoje, esses sujeitos quebram o país e vão fazer terapia em Miami".

O Master é isso: um Nelson Rodrigues sem remorso, um Jabor sem esperança e um Jaguar sem fígado.

É a crônica de uma falência anunciada em três vias, com reconhecimento de firma num cartório do inferno.

O dinheiro sumiu?

Ora, o dinheiro não some.

Ele apenas muda de bolso, como um fantasma que atravessa as paredes da ética para se materializar em forma de lancha em Angra.

A vida como ela é?

Não. A vida como ela se vende no mercado futuro.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 26/03/2026
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