

MAESTRIA DE MÃE A Semana Santa no interior tinha um silêncio diferente, um respeito que pairava no ar antes mesmo do sol subir. Mas, dentro da nossa casa simples, o movimento começava cedo. O protagonista já chegava com status de luxo: o bacalhau. Lembro-me de como ele era caro, um esforço orçamentário que mamãe encarava com a dignidade de quem prepara um banquete para a realeza. E, de certa forma, éramos. Ela não precisava de dornas de prata ou técnicas francesas. Sua maestria estava no toque, no jeito de dessalgar a peça, no corte preciso das batatas e naquele azeite que brilhava como ouro sob a luz da cozinha. Nossa casa, de portas sempre abertas, parecia esticar as paredes. Cabia todo mundo. E quem chegasse, por mais humilde que fosse, era recebido com o mesmo sorriso de quem apresenta um prato cinco estrelas. O segredo não estava apenas no peixe, mas na alegria dela em nos ver em volta da mesa. Ver o brilho nos olhos de cada um ao saborear aquele prato era o seu maior troféu. Naquele momento, não havia inflação, não havia escassez; havia apenas a abundância do afeto. Hoje, o calendário avisa que é Semana Santa novamente. Mas o tempo, esse mestre implacável, resolveu voar. O interior ficou para trás, a casa mudou de dono e o bacalhau agora é temperado com uma pitada de melancolia. A vida segue, como tem que seguir, mas o coração insiste em voltar para aquela mesa de madeira, para aquele cheiro que tomava conta da sala e, principalmente, para o abraço dela depois do almoço. A saudade bate forte porque o que a gente comia não era apenas comida. Era amor servido em postas. E esse gosto, nem o tempo, nem a distância, conseguem apagar. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 31/03/2026
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