SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

NO BAR DO ADEMIR, ATÉ O APOCALIPSE ACEITA PIX

No Bar do Ademir, a luz amarela e doentia realçava as olheiras de Ricardo.

Ele não falava; ele sentenciava, com a saliva amarga de quem já viu todos os adultérios da História.

— A política, meus amigos — rosnou Ricardo, a voz carregada de uma rouquidão bíblica — é o adultério do povo.

A gente vai às urnas com a mesma esperança patética do corno que acredita no "foi apenas um beijo".

Bia, que exibia um sorriso de navalha, ajeitou a alça da blusa.
— O Brasil é uma viúva pornográfica, Ricardo.

Clama por castidade enquanto se entrega ao primeiro populista que lhe pisca o olho no horário eleitoral.

O mundo?

O mundo é um hospício de gravata.

Veja os Estados Unidos, a Alemanha... todos querendo o chicote, todos com o fetiche da ordem enquanto o caos escorre pelo canto da boca.

Paulo, o lívido, sentia o peso da traição no estômago.

Para ele, o mapa-múndi era um lençol sujo.
— O ódio é a única paixão honesta que sobrou.

A gente odeia o candidato como odeia o vizinho que estaciona na nossa vaga.

É visceral.

É o sangue subindo à cabeça na hora do voto, a mesma fúria de quem flagra a esposa no sofá com o melhor amigo.

— E a Venezuela, a Groenlândia, o Irã? — interrompeu Juliana, com uma frieza de necrotério. — São as amantes que ninguém assume, mas que todos sustentam.

A política internacional é uma alcoviteira, Paulo.

Ela arranja o crime e nós, os idiotas da objetividade, pagamos o motel.

O cotidiano batia no balcão com o som de uma moeda de um real.

O destino estava selado.

Não havia saída, apenas a embriaguez da desilusão.

— No fundo — concluiu Ricardo, o olhar fixo numa mosca que agonizava no pires — toda eleição é um velório de luxo.

A gente chora o defunto, mas já está de olho na herança que nunca vai receber.

O garçom, o único filósofo autêntico daquela tragédia, trouxe a conta.
— A traição é um direito divino, cavalheiros. Mas a conta do bar é a única lei que o Supremo não derruba.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 01/04/2026
Alterado em 01/04/2026
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