

DEUS E O DIABO NA TERRA DO ORÇAMENTO SECRETO O encontro aconteceu num boteco de esquina que não constava em nenhum mapa, onde o asfalto termina e a poeira — ou a má gestão pública — começa. Sentados em uma mesa bamba de fórmica, Deus e o Diabo dividiam uma porção de amendoim e uma garrafa de tubaína, observando o telão de LED de um comício que brilhava ao longe. — Está ficando difícil, Velho — disse o Diabo, ajeitando a gravata impecável. — Eu tento bolar uns planos clássicos, mas os caras lá embaixo elevaram o cinismo a um nível de arte. Olha aquele candidato: prometendo "honestidade absoluta" enquanto o marqueteiro usa IA para criar um vídeo do adversário chutando um filhote de Golden Retriever. Eu me sinto um amador. Deus suspirou, apoiando o queixo na mão com a exaustão de um professor de jardim de infância em dia de tempestade. — O que me fascina é a capacidade deles de transformar tudo em time de futebol. Eu dei o dom da palavra, e eles usam para criar memes que resumem crises econômicas complexas em uma frase com erro de português. Ontem vi um sujeito brigando com uma árvore porque ela "atrapalhava o sinal do Wi-Fi" de sua postagem sobre sustentabilidade. O cara quer processar o carvalho por causa de um filtro de gatinho. O Diabo deu uma risadinha seca, fazendo a Tubaína borbulhar. — E a polarização? Genial! Antigamente eu gastava séculos semeando discórdia entre reinos. Agora, basta um tiozão mandar um "bom dia" com notícia falsa no grupo da família e a ceia de Natal vira uma guerra civil. Eles se odeiam por causa de políticos que nem sabem que eles existem. É o meu feriado favorito, e dura o ano todo. Chamam suborno de "emenda técnica"... Nem eu teria coragem de um eufemismo tão poético. — O mais triste — continuou Deus, olhando para o horizonte rosa que ninguém mais via porque estavam todos olhando para as telas — é que eles esperam um Messias de terno e gravata para não terem o trabalho de separar o lixo ou não furar a fila. Eles amam a democracia, desde que o resultado seja exatamente o que eles querem. Se não for, vira "golpe", "fraude" ou "culpa do algoritmo". Eu perdi o posto de Criador para uma linha de código que diz o que eles devem pensar. — Sabe o que eu vou fazer? — perguntou Deus, levantando-se e ajeitando a túnica invisível. — Vou desligar o sinal do satélite por quinze minutos. Só para ver se eles lembram como se conversa olhando nos olhos sem chamar o vizinho de fascista ou comunista por causa do preço do tomate. O Diabo sorriu, mostrando dentes brancos demais. — Cruel. Gostei. Se precisar de ajuda para cortar a fibra ótica, você sabe onde me encontrar. Mas antes, me diz: aquele candidato ali me prometeu a alma, mas será que você não pode dar uma "ajudadinha"? A sua aprovação rende muito mais engajamento. Deus pagou a conta com uma nota de papel tão bonita que o dono do bar a enquadraria, e os dois saíram caminhando lado a lado. Deixaram para trás o bar, a política e o som estridente de uma carreata, onde o povo gritava por liberdade enquanto seguia, cegamente, o próximo pastor de rebanhos eleitorais. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 01/04/2026
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