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"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

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O OVO DE PÁSCOA E O MILAGRE DO PARCELAMENTO

Ouro em forma de ovo.

Não há outra definição para o que acontece nas prateleiras dos supermercados brasileiros quando o calendário vira para abril.

O chocolate, aquele humilde quadradinho que nos consola nas tardes de terça-feira, sofre uma metamorfose de grife: ganha curvas, um embrulho barulhento e um preço que desafia a lógica da economia básica.

Entrar no "corredor dos ovos" é um exercício de fé e masoquismo.

Lá estão eles, pendurados como joias da coroa, vigiados por seguranças que parecem prontos para impedir o furto de um diamante bruto.

O brasileiro, mestre na arte de fazer o impossível com o salário mínimo, para diante da gôndola, olha o preço, faz o cálculo da grama e chega à conclusão óbvia:

"Com o valor desse ovo de 400g, eu comprava dez barras, um quilo de alcatra e ainda sobrava pro café".

Mas a lógica não tem convite para a Páscoa.

O que se vê a seguir é o fenômeno do "parcelamento afetivo".

O cidadão saca o cartão de crédito com a solenidade de quem assina um tratado de paz.

"Em quantas vezes?", pergunta o caixa.

"No máximo que a casa permitir", responde o herói, pronto para pagar a última parcela do chocolate quando o Papai Noel já estiver batendo à porta.

É o chocolate a perder de vista; uma doçura que acaba em dez minutos, mas uma dívida que dura o semestre inteiro.

Há quem diga que é pelo brinde.

O pai de família gasta o equivalente a um tanque de gasolina por um ovo que vem com um bonequinho de plástico que será esquecido debaixo do sofá na segunda-feira de manhã.

Mas não é só o brinquedo.

É o símbolo.

O ovo de Páscoa é a prova material de que, apesar da inflação, dos boletos e do caos, a gente ainda consegue comprar um pedaço de felicidade efêmera, brilhante e excessivamente cara.

No fim das contas, a loucura faz sentido.

O chocolate amargo a gente deixa para o resto do ano, nas notícias e no extrato bancário.

Na Páscoa, a gente prefere o doce — mesmo que ele venha com juros e precise ser dividido em doze meses sem entrada.

Afinal, se o mundo está derretendo, que pelo menos seja com gosto de cacau e a ilusão de que, no cartão de crédito, tudo se resolve.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 01/04/2026
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