

O GOSTO DO CONHAQUE FRIO O café estava frio, mas o conhaque era bom. Ele olhava para a rua úmida de Paris e pensava que a vida é um assunto de resistência, nada mais. Viver é como pescar em águas profundas. Você lança a linha e espera. Às vezes, o que morde é o que você queria; outras vezes, é algo que arrasta você para o fundo. O amor é assim. No começo, tem o brilho das escamas de um marlim sob o sol. Depois, vem o peso. E, por fim, os tubarões. Eles sempre chegam para levar a carne, deixando apenas o esqueleto branco e limpo do que um dia foi uma paixão. A desilusão não é o fim, embora pareça. É apenas a forma como o mundo nos quebra. O mundo quebra a todos, mas depois, muitos ficam fortes nos lugares quebrados. É um processo seco, sem muitos adjetivos. Você perde uma mulher, ou um amigo, ou uma guerra. Você sangra, estanca o sangue e caminha. Se você parar, os fantasmas alcançam você. Os fantasmas não são mortos. São as coisas que deixamos de fazer, as palavras que engolimos e os erros que repetimos porque somos homens e somos tolos. Eles não fazem barulho, mas pesam no bolso do paletó como pedras. A vitória não é derrotá-los para sempre. Isso é impossível. A vitória é acordar, barbear-se, olhar no espelho e decidir que, hoje, eles não vão vencer. É lutar a luta que já está perdida, apenas pelo prazer de lutar bem. É saber que o mar é maior que você, mas que o barco ainda é seu. Ele terminou o conhaque. Estava pronto para a próxima rodada. O sol estava baixando e o frio apertava, mas ele estava vivo. E estar vivo, da maneira certa, já é vencer tudo o que tenta nos apagar. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 02/04/2026
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