SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

O PRIMO RICO VISITA A QUEBRADA

Na periferia, a Sexta-Feira Santa não começa na igreja, mas sim no balcão do mercado, numa disputa épica entre a fé e o preço do quilo.

O Seu Jorge, legítimo representante do "se virar nos trinta", encarou o pedaço de peixe seco com a mesma seriedade de quem encara um boleto vencido.

O bacalhau, amarelado e com mais sal que o Mar Morto, parecia zombar dele sob a luz fluorescente.

— Esse peixe aqui veio de Portugal ou foi ele que descobriu o Brasil, ô Marcão? — perguntou Jorge, cutucando a peça rígida.
— É do Porto, Jorge!

Do porto de Santos não é, garanto — rebateu o açougueiro, com o humor de quem já ouviu a mesma piada dez vezes só naquela manhã.

Jorge levou o "fóssil" para casa.

O ritual começou na quarta-feira: o peixe passou quarenta e oito horas de molho, trocando de água mais que político troca de promessa.

Na sexta de manhã, a casa exalava aquele aroma característico que avisa a vizinhança inteira: "Hoje tem ostentação, mas amanhã a janta é ovo".

Dona Lurdes, a esposa, assumiu o comando da cozinha.

O bacalhau, depois de devidamente "dessalgado" (um termo técnico para "ainda salgado, mas mastigável"), foi para a travessa.

Só que bacalhau de periferia tem uma regra matemática própria: para cada 100g de peixe, você coloca 1kg de batata.

É a lei da multiplicação dos tubérculos.

— Lurdes, cadê o bacalhau? — Jorge perguntou, analisando a travessa que parecia um mar de batatas cozidas.
— Tá aí embaixo, Jorge. É um "esconde-esconde" de luxo. Procura que você acha um fiapo.

Na hora do almoço, a família se reuniu.

O genro, que sempre aparece nessas horas, serviu-se de uma montanha de batatas com a esperança de pescar o tesouro.

No primeiro contato com a língua, o veredito:
— Tá bom, sogra. Mas acho que o peixe ainda tava com saudade do mar, viu?

Jorge, com a pressão subindo só de olhar para o prato, deu um gole generoso no guaraná quente.

O peixe estava tão salgado que ele sentiu que, se bebesse água, ia acabar virando um aquário.

Mas ninguém reclamava.

Na periferia, o bacalhau da Sexta-Feira Santa é mais que uma refeição; é um troféu de sobrevivência.

No fim, todos terminaram o almoço felizes, devidamente inchados de tanto sódio, mas com a alma lavada.

Afinal, como dizia Seu Jorge enquanto buscava um palito de dente: "Pelo menos a batata tava com gosto de bacalhau. E no ano que vem, a gente tenta a sorte com o filé de Merluza, que é o primo pobre que não exige tanto do coração".

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 03/04/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras