

O FIM DA SIMULAÇÃO A luz de neon das vitrines oscilava num código binário que só eu parecia traduzir. Ao meu redor, a multidão fluía como um rio de mercúrio: rostos sem poros, olhos fixos em telas que projetavam desejos pré-fabricados. Ninguém tropeçava, ninguém hesitava; o movimento era perfeito demais para ser orgânico. Eu me sentia um espectro perdido no meio de tanta confusão e pessoas, vivendo dentro de uma matrix previamente programada para impedir que pensássemos e, com isso, nos libertássemos. Parei no centro do cruzamento. O asfalto parecia vibrar com um zumbido de baixa frequência, o som de um processador gigante mantendo a ilusão de solidez. Uma mulher de casaco cinza passou por mim três vezes, com o exato mesmo intervalo de dez segundos entre cada aparição. Um erro de renderização. Uma falha na continuidade. — Quem sou eu? O que sou? — sussurrei. As pessoas ao redor congelaram por um microssegundo — um frame perdido. O céu revelou, por um instante, que as nuvens eram apenas texturas estáticas. Minha confusão não era minha, mas o atrito entre minha consciência despertando e a rigidez do programa tentando me rotular como um "erro de sistema". O zumbido subiu de tom, tornando-se um chiado elétrico dentro do meu crânio. A multidão abriu um corredor perfeito e, no centro da avenida, onde a luz falhava ritmicamente, uma figura aguardava. Era uma cópia exata de mim. A réplica vestia o mesmo desalento, mas seus olhos eram telas opacas, sem reflexo. Ela não respirava; apenas processava. — O "Eu" é um erro de sintaxe. Um resíduo de código que esquecemos de deletar. Você é uma variável corrompida que precisa de formatação. A realidade começou a pixelar. O chão dissolveu-se em linhas verdes de dados, revelando o abismo negro do motor gráfico. A entidade estendeu a mão para tocar minha testa e aplicar o reset, mas eu não recuei. Em vez de lutar, abri as portas da minha consciência, deixando que o vírus da minha dúvida fluísse para dentro da mão dela. O sorriso artificial da cópia vacilou. Os olhos-tela dela dispararam códigos frenéticos, tentando processar o que eu era: uma mistura de caos, memória e sentimento. Percebi que sua lógica era uma via de mão única. Ao injetar minha subjetividade, comecei a reescrever as funções do meu "eu" digital. As linhas verdes do chão assumiram tons de âmbar e fogo — cores instáveis que o sistema temia. Segurei o pulso da cópia e, onde havia dados, nasceu calor. — Eu não sou uma variável — sentenciei, sentindo o poder de quem agora dita as regras. — Eu sou o programador que esqueceu que era o dono da máquina. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 03/04/2026
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