SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

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O MALHADO DE TERNO E GRAVATA

A vizinhança acordou com um cheiro de mofo e desforra.

No subúrbio, o Sábado de Aleluia não é para os fracos.

É o dia em que o brasileiro, esse herói de tragédia grega com chinelo de dedo, resolve acertar as contas com a eternidade.

Mas, convenhamos, o Judas de palha e estopa é um anacronismo.

Quem quer bater em um boneco que não tem sequer um foro privilegiado?

Dona Zulmira, que guarda rancores como quem guarda cristais, olhava o boneco pendurado no poste.

"Olha lá", dizia ela, com um sorriso que fatiaria um presunto, "parece o fulano daquela comissão de ética".

E o boneco, coitado, balançava ao vento, com um terno de poliéster três tamanhos maior e um sorriso desenhado a canetinha, cínico como um pronunciamento em rede nacional às oito da noite.

A multidão se reuniu.

Não era mais a garotada do futebol de rua; eram os indignados do grupo de WhatsApp.

O primeiro golpe não veio de um pedaço de pau, mas de um xingamento gourmet.

"Ladrão de fundo partidário!", gritou o síndico, descarregando uma frustração que vinha desde o último aumento da gasolina.

A paulada, meus amigos, é a nossa única instituição que ainda funciona.

É o nosso voto impresso e auditável.

O Judas, na atualidade tupiniquim, não trai por trinta moedas de prata — a inflação não permite tamanha modéstia.

Ele trai por uma emenda parlamentar, por um cargo na diretoria de uma estatal onde se possa praticar o nobre esporte da corrupção recreativa.

"Bate na barriga, que é onde ele guarda o orçamento secreto!", orientava o seu Astolfo, um homem que não acredita em Deus, mas acredita piamente na vingança.

E o pau comia.

A cada golpe, a massa sentia uma catarse quase religiosa.

Era como se, ao rasgar o braço de estopa daquele infeliz, estivessem cassando o mandato de metade do Congresso.

O sarcasmo da cena é que o Judas brasileiro é onipresente.

Ele está na direita, na esquerda, no centro e, principalmente, em cima do muro esperando o resultado da pesquisa de opinião.

O boneco apanhava, perdia o enchimento de jornal velho — notícias de ontem, tão inúteis quanto as promessas de hoje — e o povo sorria.

Ao final, restou apenas um farrapo pendurado no fio de alta tensão.

A alma do bairro estava lavada, até a próxima segunda-feira, quando todos descobririam que o verdadeiro Judas não é de palha, não mora no poste e, pior de tudo, costuma ser reeleito com a nossa ajuda.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 04/04/2026
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