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"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

LOBBY DE LOBO E SALÁRIO DE ANÃO

A fila do Restaurante Popular "Maçã de Ouro" dobrava a esquina da Praça da República.

Branca, ex-modelo que perdeu tudo após um processo de difamação movido por sua madrasta — uma influenciadora digital de estética e botox —, ajustava o avental.

Hoje ela era voluntária, servindo quentinhas ao lado de sete operários da construção civil que dividiam uma quitinete apertada no centro: o Dunga, que trabalhava no silêncio do trauma; o Mestre, sindicalista aposentado; e os outros cinco que sobreviviam entre bicos e o sonho da casa própria.

O clima na cidade estava tenso.

Era ano de eleição.

No palanque montado do outro lado da rua, o Lobo, um marqueteiro de terno slim e hálito de café caro, ajustava o microfone.

Ele era o "homem do povo" da vez, mestre em soprar e derrubar reputações com um post de WhatsApp.

Seu objetivo?

Convencer a massa de que a culpa da fome não era da economia, mas dos porquinhos que "não queriam trabalhar".

"É tudo uma questão de narrativa, meu caro", dizia o Lobo ao Príncipe, um herdeiro de terras no interior que tentava a prefeitura para manter os privilégios da família.

O Príncipe, cujo maior feito na vida fora herdar um cavalo de raça e um sobrenome pomposo, olhava para a fila com um misto de nojo e oportunismo.

De repente, um sedã preto com vidros filmados estacionou.

Dele desceu Dona Regina, a Bruxa do marketing político adversário.

Ela não trazia maçãs, mas sim um tablet com a "pesquisa de rejeição".

— O povo gosta de drama, Príncipe — sibilou ela, retocando o batom roxo que parecia veneno seco. — Se você quer ganhar, tem que beijar a Branca na frente das câmeras.

Transformar a fome dela em caridade eleitoral.

Branca, que já tinha aprendido a identificar serpentes, apenas continuou servindo o feijão.

Quando o Príncipe se aproximou com o fotógrafo a postos, pronto para o "beijo da salvação" que estamparia a capa do jornal matutino, o Mestre atravessou a frente com sua colher de pedreiro.

— Aqui ninguém precisa de despertar cinematográfico, doutor — disse o operário.

— A gente só precisa que as leis funcionem e que o Lobo pare de soprar mentira no ouvido de quem não tem onde morar.

O Príncipe hesitou.

O Lobo rosnou.

A Bruxa guardou o tablet, frustrada.

No Brasil do cotidiano, o final feliz não vinha de um beijo real, mas de quando os pequenos se juntavam para não deixar a casa cair.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 04/04/2026
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