

O TINIDO DA COLEIRA DOURADA O ouro não canta; ele gargalha. É um som fino, uma lâmina de som que corta a garganta do silêncio faminto. Enquanto o metal dourado tilinta no bolso de quem nunca sangrou, a massa se ajoelha no cascalho, com as mãos postas em concha, esperando que o suor se transforme em vinho por milagre de um Messias de gesso. É a estética do abismo: o brilho da moeda reflete nos olhos baços de quem trocou o pão pela promessa. O tilintar é o chicote invisível que dita o ritmo da marcha dos descalços. Eles louvam o pastor que tosa a lã, beijam o anel que os esmaga e chamam de "salvação" a migalha que cai da mesa farta. A miserabilidade não está no estômago vazio, mas na alma que se curva diante do tilintar alheio, acreditando que o som do metal é o anúncio de um céu que, na verdade, já foi vendido em leilão. O Messias sorri, o ouro soa, e o povo, em transe, caminha sobre as brasas da própria esperança, sem perceber que o único paraíso que o metal dourado compra é aquele que os mantém exatamente onde estão: no chão. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 05/04/2026
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