SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

ECONOMIA DE PACIÊNCIA: O GUIA PRÁTICO

Dizem que o som mais libertador do universo não é o canto dos pássaros ou o "sim" no altar, mas o clique seco e imaginário de um botão posicionado bem no centro do peito: o botão do foda-se.

No cotidiano, ele é um item de sobrevivência básica.

Sabe aquele grupo de WhatsApp do condomínio onde o "Síndico Alcir" discute o tom de bege do hall às duas da manhã?

Você lê, sente a veia da testa pulsar, e quando vai digitar um textão sobre a estética pós-moderna das áreas comuns... clique.

O foda-se é acionado.

Você guarda o celular e dorme como um anjo que acaba de ganhar a quitação do IPTU.

Na política, então, apertar esse botão é quase uma questão de saúde pública.

Se a gente for levar a sério cada discussão de bar sobre o "viés ideológico do preço do chuchu", a gente não chega ao próximo Réveillon.

O brasileiro médio sobreviveu aos últimos anos na base do dedo engatilhado: "O ministro falou o quê? O deputado fez o quê?". Clique.

É o foda-se agindo como um filtro de ar: a fumaça tóxica fica lá fora, e aqui dentro a gente só quer saber se o feriado vai cair na quinta ou na sexta.

Mas é no amor que o botão ganha contornos dramáticos.

Existe aquele momento em que o "crush" visualiza, não responde, posta um story num rodízio de japonês e você percebe que está há três horas analisando a semiótica de um emoji de coração azul. É aí que a mão coça.

Você olha para o abismo da carência, o abismo olha de volta, e você... clique.

O foda-se amoroso é a melhor maquiagem que existe.

De repente, o gelo dele vira refresco e você se toca que há muitos outros peixes no mar — e que nenhum deles exige que você decifre hieróglifos digitais.

A verdade é que a vida é um grande painel de controle.

Tem gente que gasta a bateria tentando consertar cada fusível queimado do mundo.

Eu prefiro a economia de energia.

Apertar o botão do foda-se não é ignorância, é curadoria existencial.

É decidir que o seu estoque de paciência é limitado e que não vale a pena gastar o último frasco com quem não sabe a diferença entre opinião e chatice.

No fim das contas, quando a gente aperta esse botão, o mundo continua girando, a política continua caótica e os amores continuam complicados.

A única diferença é que você, finalmente, consegue ouvir o silêncio gostoso de quem parou de se importar com o que não importa.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 06/04/2026
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