

O OCEANO E A GOTA: A INSIGNIFICÂNCIA DO TEMPO O relógio na parede não marca as horas, mas o ritmo de um ensaio repetitivo. Existir é como sentar-se à beira de um rio: as águas que tocam seus pés agora nunca são as mesmas que passaram há um segundo, e ainda assim, o rio permanece. Nossa biografia, vista de perto, parece um monumento de certezas. Lutamos por nomes, heranças e memórias, esquecendo que o corpo é apenas uma estação de embarque. Diante da imortalidade da alma, a vida humana não é um livro, mas um único parágrafo — ou talvez apenas o suspiro entre duas palavras. Somos o rastro de um meteoro: um brilho intenso e breve que a escuridão do cosmos acolhe sem esforço. O que chamamos de "fim" é apenas a alma trocando de figurino. Ela é a viajante veterana que já atravessou desertos de silêncio e oceanos de luz antes mesmo de este corpo aprender a respirar. Nessa dança cíclica, as idas e vindas não são perdas, mas atualizações. Cada retorno é um ajuste de foco; cada partida, um retorno para casa. A insignificância da nossa rotina, quando confrontada com o eterno, não deve nos entristecer. Pelo contrário, ela nos liberta. Se a alma é imortal, não há erro que seja fatal nem tempo que seja curto demais. Somos passageiros de uma eternidade paciente, aprendendo a ser rio em um mundo que insiste em ser represa. No fim das contas, a vida é o rascunho. A alma é a obra pronta, esperando o momento em que a caneta finalmente ficará sem tinta para que a história possa, enfim, ser lida por inteiro. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 06/04/2026
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