SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

CAMPO MINADO: A GEOGRAFIA DO LAR

O balcão do bar é, muitas vezes, a fronteira final entre o cansaço do corpo e a exaustão da alma.

Ali, entre o tilintar dos gelos e o murmúrio de outras solidões, o tempo parece suspenso.

Para muitos, esse refúgio de madeira e luz baixa não é um vício, mas um adiamento: o prolongamento necessário do silêncio antes de enfrentar o ruído ensurdecedor de uma casa que deixou de ser lar.

Cruzar o umbral da própria porta deveria ser o desfecho de uma batalha, o momento de depor as armas.

No entanto, em muitos lares, a chave vira na fechadura como quem entra em um campo minado. Onde se esperava o bálsamo do "como foi o seu dia?", encontra-se o gume afiado do desrespeito ou a muralha intransponível da indiferença.

As palavras amargas, proferidas sob o teto que deveria abrigar o afeto, tornam-se o alimento de uma guerra de desgaste.

O paradoxo mais doloroso é que esse "eterno guerrear das paixões" ocorre entre duas pessoas que, em algum momento, escolheram-se para ser o porto seguro uma da outra.

A mulher amada — ou aquela que se convencionou amar — torna-se o espelho de uma frustração mútua.

Vive-se uma coreografia de ataques e defesas, onde o carinho foi substituído pela vigilância.

Nesse cenário, o bar torna-se o purgatório ideal: um lugar onde não se é nem o herói cansado, nem o vilão doméstico.

É o espaço do "quase".

Mas a última dose sempre chega, e com ela a percepção de que a verdadeira estafa não vem do trabalho, mas da falta de paz para onde retornar.

Enquanto o lar for um ringue, o bar continuará sendo a única sala de estar possível.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 06/04/2026
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