

O BEIJO DE JUDAS ANTES DO JANTAR A sala de estar era o palco de uma tragédia muda, adornada por crochês e o cheiro de lustra-móveis. Ali, entre o sofá de veludo e a cristaleira de herança, o casamento não era um contrato, era um duelo de silêncios. Nelson diria que o adultério começa no modo como ele esquece de apagar a luz da cozinha. É uma vingança mesquinha, um adultério doméstico contra a ordem das coisas. Ela, com o bob no cabelo e a alma em frangalhos, olha para a toalha molhada em cima da cama como se fosse o corpo de um crime. "O amor é o cinismo dos desesperados", ele pensaria, enquanto ela guarda o ódio na gaveta de talheres, polindo as facas com uma fúria mística. Na crônica nelson-rodriquiana, não se discute a conta de luz; discute-se o destino. O marido que chega tarde não traz apenas o bafo de uísque, traz o fantasma de todas as mulheres que ele não teve. E a esposa, essa "santa de gesso", sabe de tudo pelo simples jeito que ele pendura o paletó. No cotidiano da casa, cada rangido do assoalho é uma confissão e cada xícara de café frio é um epitáfio. O "fundo de verdade" é que ninguém é normal entre quatro paredes. Sob o teto de zinco ou de telha francesa, o casal se devora com os olhos, não de desejo, mas de conhecimento. Conhecem-se tanto que se tornam estranhos. O cotidiano é o purgatório dos detalhes: a tampa do dentifrício aberta é o primeiro passo para o abismo. Pois, como bem sabemos, no casamento, a felicidade é apenas uma distração entre dois tédios monumentais. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 09/04/2026
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