

A Sentinela do Prédio 4 Dona Guiomar não precisava de despertador. O gatilho de sua consciência era o som seco do portão de ferro se fechando às 6h45. Era o Vanderlei, do 302, saindo para o trabalho. "Lá vai ele com aquela marmita mal amarrada. Um dia vaza feijão na pasta de couro e ele aprende", resmungava ela, ajeitando a cortina da sala como quem opera um radar de alta precisão. A vida de Guiomar era um grande tabuleiro onde ela movia peças que sequer sabiam que estavam no jogo. Ela sabia que a moça do 104 andava triste porque as encomendas da Shopee tinham parado de chegar. Suspeitava que o síndico estava tingindo o cabelo — "um preto-asa-de-graúna que não engana nem cego" — e tinha certeza absoluta de que o casal do 205 ia se separar, já que o lixo deles agora tinha mais latas de cerveja do que embalagens de iogurte. Enquanto monitorava o fluxo de idas e vindas, o café de Guiomar esfriava na xícara, criando uma película triste e cinzenta. A pia da cozinha acumulava a louça de anteontem. Uma conta de luz, já vencida, repousava debaixo de um folheto de supermercado, esquecida entre uma espiada e outra pelo olho mágico. Às dez da manhã, a campainha tocou. Era a vizinha da frente, uma jovem estudante que raramente parava em casa. Guiomar travou. Olhou para o vaso de samambaia, agora um esqueleto marrom e sem vida. Ela estava tão ocupada notando que a vizinha não regava as próprias flores, que esqueceu de dar água às suas. — Ah, minha filha... é o calor — mentiu, sentindo um vazio súbito. A jovem sorriu, entregou uma correspondência que fora deixada por engano em sua caixa e saiu. Guiomar fechou a porta e, pela primeira vez em anos, não correu para o olho mágico para ver se a menina estava de chinelos ou salto. Olhou para as próprias mãos, manchadas pelo tempo, e para o silêncio da casa que ela mal habitava, embora nunca saísse de lá. O mundo lá fora continuava girando, imperfeito e alheio. E ali dentro, Guiomar percebeu que, de tanto vigiar o jardim dos outros, tinha virado o próprio espantalho. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 11/04/2026
Alterado em 11/04/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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