

A SELEÇÃO DO ÓCIO E A POLÍTICA DO NEGÓCIO O bar "Libido & Legislação" estava fervendo naquela sexta-feira. Entre um balde de cerveja e uma porção de coxinha gourmet — que, como a economia, tinha muito recheio de vento e pouco substância — três casais tentavam relaxar. Tentavam. Ricardo, que usava uma camisa polo tão apertada quanto o orçamento do Ministério da Saúde, deu o primeiro gole. "A verdade é que política é igual a casamento: você escolhe o 'menos pior', faz uma festa caríssima e, seis meses depois, descobre que ele está de conluio com o centrão do prédio." Sua esposa, Marcela, nem tirou os olhos do celular. "Falou o especialista em coalizão clandestina, né? Engraçado que a tua 'reforma ministerial' no ano passado incluiu uma secretária de 22 anos e um motel na beira da estrada." A mesa silenciou. O gelo do balde derreteu mais rápido que as promessas de campanha. "Isso não foi traição, Marcela", rebateu Ricardo, ajeitando o colarinho. "Foi uma articulação de base. Eu precisava de apoio para aprovar as horas extras." "Articulação de base? Tu foi é pego no VAR, meu filho!", interveio Beto, o amigo fanático por futebol, já com a voz embargada. "E por falar em VAR, viram a convocação da Seleção? É o retrato do Brasil: um bando de bilionário que joga na Europa, não sabe onde fica o Oiapoque, e em campo corre menos que o Lira atrás de emenda parlamentar." Beto estava inconformável. "A Seleção este ano é o verdadeiro estelionato eleitoral. O técnico promete o Hexa, mas o esquema tático é o 'cada um por si e Deus contra todos'. É o puro suco de Brasil: muita dancinha no TikTok e pouco gol. O ataque tá mais inofensivo que nota de repúdio de partido de centro." "Mas a traição dói mais na política, gente", suspirou Juliana, a mais mística do grupo, enquanto girava seu quartzo rosa. "Porque no casamento, você perde a casa. Na política, eles roubam a esperança, o asfalto e ainda cobram o IPVA com um sorriso no rosto." "Ah, para com isso!", debochou Arthur, o marido de Juliana, que já estava na quarta caipirinha. "Fidelidade é conceito de dicionário. Olhem o atual governo, o anterior, o próximo... É tudo uma troca de fluidos e cargos. O político dorme com a esquerda e acorda de conchinha com a direita. É a maior suruba institucional da história. E a gente? A gente é o corno manso que paga o motel e ainda limpa os lençóis." Marcela finalmente largou o celular e deu um sorriso felino. "Engraçado você falar em 'corno manso', Arthur. O pessoal do RH me contou que a tua 'viagem de negócios' para Brasília teve mais lobby em lençóis de seda do que no Congresso." A temperatura da mesa subiu dez graus. Não era o mormaço da cidade, era o fogo cruzado. "Gente, foco no que importa!", gritou Beto, batendo na mesa. "A Seleção vai ser um fiasco! A gente vai cair nas oitavas pra uma seleção que nem tem saída para o mar! Vai ser o nosso 7 a 1 ético, moral e esportivo!" "Beto, a gente já vive num 7 a 1 diário desde que o Cabral desembarcou aqui com um espelhinho e uma promessa de privatização das caravelas", rebateu Ricardo, tentando desviar do assunto da secretária. No final, a conta chegou. Dividiram em seis, mas ninguém queria pagar a parte do "fundo partidário" (a taxa de serviço). Saíram do bar como o Brasil sai de campo: derrotados, discutindo quem foi o culpado pelo gol contra, mas já marcando o próximo encontro. Afinal, no país onde o amor é relativo, a política é um cabaré e a Seleção é um meme, o que sobra é rir — de preferência, antes que a próxima traição seja publicada no Diário Oficial ou no Instagram de fofoca. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 11/04/2026
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