SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

O AVESSO DO AFETO

O despertador toca e o primeiro impulso não é o botão de soneca, mas o seu braço me puxando de volta.

Existe uma guerra silenciosa entre o cansaço do mundo e o conforto do seu peito, e você quase sempre ganha.

Eu odeio o quanto você me atrasa, mas amo o jeito que seu sono pesado parece ignorar que a vida lá fora já começou.

— Você vai se atrasar — eu sussurro, embora minha mão insista em acariciar sua nuca.
— Mais cinco minutos de "nós" valem qualquer bronca do chefe — você responde, com aquela voz rouca que derrete qualquer resquício de mau humor matinal.

A gente se estranha por bobagens.

Você se irrita porque eu mudo as coisas de lugar; eu me irrito porque você nunca encontra nada, mesmo que esteja bem na sua frente.

No meio de uma discussão sobre quem deveria ter tirado o lixo, nossos olhos se cruzam e a gente percebe o ridículo da cena.

O riso brota antes da desculpa.

É um ódio de superfície, uma faísca que só existe porque o combustível é um amor denso, que não cabe em palavras bonitas de cartão.

À noite, o ritual se inverte.

Eu chego exausta e encontro você na cozinha.

O cheiro do café ou do jantar não é apenas comida; é cuidado.

Você não diz "eu te amo" a cada cinco minutos, mas coloca o meu celular para carregar quando vê que a bateria está acabando e separa a minha coberta favorita.

— Você é insuportável quando está com fome — você brinca, me estendendo um prato.
— E você é um teimoso que acha que sempre tem razão — eu devolvo, já sentindo o coração relaxar.

Nesse vaivém diário, o amor e o ódio não são opostos, são vizinhos de porta.

A gente se irrita porque se conhece a fundo, nos pontos mais crus.

Mas, no fim das contas, a irritação é só o ruído de fundo de uma melodia muito mais alta.

É o prazer de saber que, no meio de tanto caos, eu escolho você para me tirar do sério, e você me escolhe para ser o seu cais.

Quando as luzes se apagam, o silêncio não é vazio.

É o som de dois corpos que, apesar de todas as pequenas turras do dia, se encaixam como se tivessem sido feitos sob medida.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 12/04/2026
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