

A ÚLTIMA SAIDEIRA DO APOCALIPSE O Bar do Wilson, naquelas alturas das onze da noite, já não era mais um estabelecimento comercial; era um confessionário com cheiro de creolina e óleo de fritura velho. A décima saideira repousava sobre a mesa de fórmica lascada, transpirando um suor gelado que parecia ser a única coisa viva no recinto. Ali estavam eles: os quatro cavaleiros do apocalipse suburbano. Eder, o pessimista de plantão; Beto, que via a vida através de uma lente de aumento para tragédias; Humberto, o filósofo de botequim; e Chico, o eterno nostálgico. — O problema do Brasil não é a política, é o excesso de esperança — sentenciou Eder, limpando o colarinho de espuma do lábio superior. — A gente vota como quem joga na Mega-Sena. No final, o acumulado vai sempre para o mesmo bolso e a gente fica com o bilhete amassado. Beto balançou a cabeça, o olhar perdido no calendário de 2024 na parede, onde uma modelo de biquíni já desbotava sob a gordura. — Política é o de menos, Eder. Ruim mesmo foi aquele clássico. Zero a zero entre Palmeiras e Corinthians não é futebol, é ofensa ao estatuto do idoso. Noventa minutos de nada contra coisa nenhuma. Se desse um empate de 4 a 4, a gente até acreditava que a vida tem emoção. Mas o zero a zero... o zero a zero é o retrato fiel da nossa existência. Humberto, que até então rodava o copo lentamente, levantou o dedo como se fosse dar uma aula em Oxford. — É a banalidade, meus caros. A vida virou um grande replay de gols perdidos. A gente acorda, trabalha, toma essa cerveja morna e volta pra casa pra dormir e fazer tudo igual. O sistema quer que a gente seja esse zero a zero: sem riscos, sem gols, só segurando o resultado pra não cair pra segunda divisão da sanidade. — E os sonhos? — Interrompeu Chico, a voz um pouco mais embargada que a dos outros. — Lembro de quando a gente achava que ia ser astronauta, ou pelo menos ter um Opala reformado. Hoje, meu maior sonho é o boleto do condomínio vir com desconto e a infiltração do banheiro parar de chorar. Wilson, o dono, começou a baixar a porta de ferro. O barulho estridente do metal cortou a filosofia como uma guilhotina. O apocalipse, afinal, tinha hora para fechar. Eles se levantaram em sincronia, ajustando as colunas cansadas. Pagaram a conta dividida até os centavos, a última resistência contra o caos financeiro. Saíram para a calçada onde o vento de domingo à noite soprava as folhas secas e os panfletos de supermercado. Caminharam em direções opostas, quatro pontos cardeais de uma solidão compartilhada. Na segunda-feira que espreitava na esquina, nenhum deles seria cavaleiro. Seriam apenas peões, esperando o próximo domingo para, entre um gole e outro, tentarem entender por que o gol da vida teima em não sair. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 12/04/2026
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