

CRÔNICA DE UM PARTO ADIADO Sentados no parapeito de uma estrela cansada, Deus e o Diabo observavam o azul pálido da Terra. Não havia fúria, apenas o silêncio de quem compartilha a mesma profissão há milênios. — Eles estão acelerados, não acha? — perguntou o Diabo, girando um canudo de vidro entre os dedos. — Antes, o caos tinha ritmo. Uma peste levava décadas, uma guerra durava cem anos. Agora, eles fabricam o próprio abismo no café da manhã. Deus suspirou, o som de galáxias colidindo discretamente. O Diabo riu, um som seco como folhas de outono. — É a liberdade — continuou Deus, os olhos fixos em um continente em chamas. — Eu dei a eles o fôlego da escolha. Mas eles descobriram que escolher dá trabalho. É muito mais fácil entregar o caos a um destino digital do que admitir que o vazio no peito é falta de silêncio. — E agora? — perguntou o de chifres, levantando-se. — Vai intervir? Deus sorriu com uma tristeza infinita. — Bom — disse o Diabo, ajeitando a capa. — Se você não vai fazer nada, eu vou lá. Eles estão confundindo o meu inferno com o jardim de infância, e isso fere o meu brio profissional. Deus não respondeu. Apenas continuou olhando, esperando o momento em que, em meio ao barulho ensurdecedor do mundo, um único ser humano fizesse a única pergunta que realmente importa: "Quem sou eu quando ninguém está postando?" O caos, afinal, era apenas a moldura de uma obra que eles ainda se recusavam a pintar. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 12/04/2026
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