SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

O INQUILINO DO INFINITO

Abri a janela e o céu não era apenas um teto; era um abismo invertido.

Olhar para o cosmos é, invariavelmente, um exercício de humildade que beira o insulto.

Lá em cima, estrelas que já morreram continuam enviando cartões-postais de luz para um planeta que mal aprendeu a escrever.

Aqui embaixo, corremos contra o relógio do café, do trânsito e dos boletos.

Nossa vida é um fósforo riscado no meio de um furacão: um brilho intenso, urgente, mas que dura o tempo de um suspiro galáctico. Se o universo fosse um livro de mil páginas, a história da humanidade não ocuparia sequer o ponto final da última frase. É tudo muito rápido, muito frágil, muito "passageiro".

Mas há algo de estranho nessa nossa pequenez. Se somos apenas poeira, por que essa poeira insiste em amar, em criar sinfonias e em se perguntar o que há depois do horizonte?

O corpo é o relógio que atrasa, a carne que cede, o fôlego que finda. Somos inquilinos de um prazo de validade rigoroso. No entanto, sinto que a alma — esse sopro inquieto que não cabe no CPF — não reconhece a autoridade do tempo. Enquanto os olhos envelhecem, a essência parece observar o cosmos com a familiaridade de quem já morou lá.

A imortalidade da alma não me parece uma promessa religiosa, mas uma necessidade lógica. Seria um desperdício cósmico monumental dotar um ser de consciência infinita para uma jornada de meros oitenta anos. É como construir uma catedral de luz para abrigar uma festa de uma única noite.

Talvez a vida na Terra seja apenas o estágio, o ensaio geral. Somos átomos finitos brincando de eternidade. E, ao fechar a janela, percebo que a imensidão lá fora não serve para nos diminuir, mas para nos lembrar de onde viemos. O cosmos é vasto, sim, mas ele não tem o que nós temos: o espanto. O universo é grande, mas só a alma é capaz de contê-lo num olhar.

Somos passageiros, é verdade. Mas o destino, ao que tudo indica, não tem fim.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 13/04/2026
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