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"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

O MURO DAS LAMENTAÇÕES (E FOFOCAS)

O sol de segunda-feira mal tinha batido no tanque e Dona Sheila já estava lá, espremendo o último pingo de dignidade de um lençol de elastano.

Do outro lado do muro, o som ritmado de uma vassoura denunciava que Neide já estava a postos.

— Bom dia, Sheila! Sobreviveu ao churrasco do 402? — Neide apareceu no muro, com um turbante de toalha na cabeça e a cara de quem tinha dormido sobre um saco de feijão.

— Bom dia pra quem, Neide? Se "sobreviver" for não ter chamado a polícia pro som do Genivaldo, então sim. Aquele homem bota "as lendas" pra tocar e acha que a rua inteira é obrigada a sofrer por amor junto com ele.

Neide deu uma risadinha seca, apoiando o queixo na vassoura.

— Pior não foi o som, Sheila. Você viu a nora da Dona Lurdes? Chegou com um short que, se ela espirrasse, virava um cinto. E o pior: trouxe uma vasilha de maionese e levou embora duas de carne assada. Eu vi da janela. É muita audácia de quem não contribuiu nem com o carvão.

Sheila parou de torcer o lençol, os olhos brilhando.

— Não diga! E eu que achei que o auge tinha sido o filho do síndico tentando estacionar aquele carro novo? Três manobras e ele conseguiu a proeza de subir na calçada e derrubar o vaso de arruda da vizinha. A coitada tá lá agora, catando terra e rezando pra não pegar mau-olhado, porque a arruda morreu na hora.

— É o karma, Sheila. Segunda-feira é o dia oficial de colher o que plantou no sábado. Eu, por exemplo, plantei lasanha e agora tô colhendo uma azia que parece que engoli um ferro de passar ligado.

— Nem me fale. Minha dieta começou hoje de novo. Já comi uma maçã com gosto de isopor e agora tô aqui, olhando pra esse tanque, pensando: se a gente fosse rica, a fofoca ia ser em Paris, né?

Neide suspirou, voltando a varrer uma folha seca solitária.

— Em Paris não tem o Genivaldo cantando "Boate Azul" às duas da manhã, Sheila. A gente ia morrer de tédio. Segunda que vem tem mais, se o fígado da vizinhança aguentar.

— Amém, Neide. Agora deixa eu estender isso aqui antes que o sol desista da gente também.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 13/04/2026
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