SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

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POR FAVOR, SEJA MENOS

Eram seis da manhã quando o despertador não tocou. Não precisava. Ricardo, meu marido, possui um cronômetro biológico regulado por monges tibetanos e engenheiros suíços. Enquanto eu ainda tentava negociar com o meu subconsciente se valia a pena viver mais um dia, ele já estava de pé, iluminado por um raio de sol estratégico, praticando a saudação ao sol sem estalar uma única articulação.

Ricardo é, para fins estatísticos, uma afronta à humanidade média. Ele não apenas faz o café; ele mói os grãos organicamente selecionados enquanto recita as notícias do dia em três idiomas. A cama? Esticada a ponto de uma moeda de um real saltar se fosse jogada ali. O café da manhã parece um anúncio de margarina de luxo, com frutas cortadas em polígonos perfeitos e um suco verde que tem gosto de grama, mas, segundo ele, limpa até os pecados da adolescência.

— Bom dia, luz do dia! — ele exclamou, entrando no quarto com a energia de quem acabou de ganhar na loteria e descobriu a cura para a calvície ao mesmo tempo. — Já organizei a planilha de gastos do semestre, troquei a resistência do chuveiro e agendei nossa massagem tântrica para as dezoito horas. O que temos para agora?

Eu, do fundo do meu casulo de lençóis desparelhados, só consegui emitir um som que lembrava um pneu furado. Minha meta para o dia era ambiciosa: queria ser um móvel. Talvez uma poltrona. Poltronas não têm planilhas. Poltronas não tomam suco de clorofila.

— Ricardo — eu disse, com a voz de quem fumou três maços de cigarro durante o sono —, você é perfeito. De verdade. Se eu fosse um júri, te dava dez em todos os quesitos, inclusive em "simpatia excessiva antes das oito". Mas hoje eu só queria... paz.

— Mas a paz vem da organização, querida! — ele retrucou, já começando a dobrar o meu pão de pijama que eu tinha deixado no chão com a precisão de um mestre de origami. — Se otimizarmos nosso tempo de lazer, teremos 14% mais eficiência no nosso descanso.

E foi aí que a ficha caiu. O problema da perfeição é que ela é exaustiva para quem assiste. Ver o Ricardo ser produtivo me cansa mais do que se eu mesma fizesse uma maratona. Ele não descansa; ele "gerencia o ócio". Ele não relaxa; ele "pratica o mindfulness com foco em resultados".

— Eu não quero 14% a mais de nada, Rick. Eu quero o direito de ser medíocre por duas horas. Quero sentar no sofá e olhar para a parede até a parede começar a ficar interessante. Quero comer um pão com manteiga que não foi pesado em balança de precisão.

Ele me olhou com uma compaixão genuína, o que é pior do que um xingamento.
— Você está estressada. Vou buscar o óleo essencial de lavanda e o guia de respiração holística...

— Não! — eu quase gritei, sentando na cama. — Se você trouxer um óleo essencial, eu bebo o frasco. Eu só quero que você saia. Vá ser incrível em outro cômodo. Vá salvar uma baleia, vá investir em criptomoedas, vá lavar o teto. Só me deixe aqui, com a minha bagunça interna e externa.

Ele parou. Analisou a situação. Tenho certeza de que ele estava processando como "dar espaço" poderia ser incluído na sua lista de metas diárias.
— Entendi — ele disse, com um sorriso sereno. — Você precisa de um período de solitude desestruturada. Vou para a biblioteca organizar os livros por cor e ordem alfabética de autor. Volto em duas horas para checar seu nível de cortisol.

Ele saiu, fechando a porta sem fazer o menor ruído. A perfeição dele é silenciosa, o que torna tudo ainda mais irritante. Fiquei ali, finalmente sozinha. O silêncio era absoluto. Olhei para a cama perfeitamente arrumada do lado dele e para o meu lado, que parecia o cenário de um desastre natural.

Suspirei. Tentei aproveitar minha paz. Mas, depois de dez minutos, percebi que o Ricardo tinha deixado o café pronto na caneca térmica, exatamente na temperatura que eu gosto, com um bilhetinho escrito em caligrafia gótica: "Aproveite sua desestruturação. Te amo."

Maldito homem perfeito. Peguei a caneca, deitei de novo e comecei a olhar para a parede. Em cinco minutos, eu estava dormindo de novo. No fundo, a realidade de um casal é essa: um carrega o piano com a precisão de um maestro, enquanto o outro só quer usar o piano para tirar um cochilo em cima das teclas. E, de alguma forma bizarra, a música acaba saindo.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 18/04/2026
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