

A DERRAMA DOS CANCELADOS Ouro Preto ainda cheira a neblina e café requentado, mas os cavalos agora têm duzentos cavalos-vapor e roncantes escapamentos abertos. Se Tiradentes descesse hoje a Ladeira de Santa Efigênia, não encontraria o peso das correntes, mas o brilho frio de uma tornozeleira eletrônica escondida sob a calça jeans de algum "patriota" de ocasião. A conspiração mudou de endereço. Não se trancam mais em porões à luz de velas para ler autores proibidos; agora, o levante acontece em grupos de WhatsApp, entre figurinhas de bom-dia e teorias sobre o fim do mundo. O quinto, aquele imposto que derramava o sangue da colônia, continua lá, batizado de carga tributária, financiando lagostas em tribunais enquanto o povo discute se o herói da vez é o juiz, o carrasco ou o réu. Joaquim José, o alferes, hoje seria cancelado antes mesmo da primeira reunião. Alguém filmaria seu desabafo no balcão de um bar e o vídeo viralizaria com a legenda: "Urgente: radical atenta contra as instituições". A elite intelectual da Vila Rica atual — acadêmicos de lattes gordo e políticos de sapatênis — continuaria a mesma. Prometeriam mundos e fundos, citariam a liberdade (ainda que tardia), mas, ao primeiro sinal de busca e apreensão, entregariam a cabeça do vizinho em troca de um foro privilegiado ou um acordo de leniência. A nossa "derrama" é moral. Vivemos o fetiche do enforcamento público em praça digital. O cadafalso é o feed. Não se esquarteja mais o corpo para ser exibido em postes; esquarteja-se a reputação, a biografia, a dignidade. O rosto de Tiradentes nas notas de dinheiro é a única parte dele que a sociedade ainda abraça com fervor, enquanto ignora que o espírito da revolta foi domesticado pelo cinismo. O Brasil de hoje é uma Vila Rica sem ouro, onde todos se acham poetas, mas ninguém quer o exílio. Gritamos "Libertas Quæ Sera Tamen" enquanto checamos as notificações, esperando que a liberdade caia do céu como um Pix, sem perceber que o Visconde de Barbacena agora usa terno sob medida, fala em nome da democracia e nos cobra o dízimo da esperança todos os dias, sem falhar um minuto sequer. A forca ainda está armada. Só mudaram o material da corda para fibra óptica. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 21/04/2026
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