SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

DESCIDA PRO MAR, SUBIDA PARA O INFERNO

A subida da Imigrantes é um teste de caráter que a família Souza costuma reprovar. O feriado de quatro dias em Mongaguá, que deveria ser um bálsamo para a alma, terminou em um Corolla transformado em panela de pressão humana.


O Saldo da "Descida"

  • Queimaduras: Todos ostentam o tom "camarão-recheado".

  • Gastos: O milho na areia custou o preço de uma picanha.

  • Higiene: Três quilos de areia fina migraram para o estofado do carro.


O Cenário do Caos

O congestionamento parou na altura de São Vicente. Lá fora, o asfalto derrete; lá dentro, o ar-condicionado perde a batalha para o hálito de quem almoçou pastel de vento e caldo de cana.

Seu Jeferson, ao volante, já não busca o descanso; ele busca vingança contra o motoqueiro que raspou seu retrovisor. Dona Neuza, no banco do carona, confere o extrato bancário no celular e suspira o som de uma tragédia grega. O dinheiro do IPVA virou porção de isca de peixe borrachuda.

O Estopim no Banco de Trás

No banco de trás, o conflito é territorial.

  • Enzo: Reclama que a bateria do celular morreu.

  • Julinha: Chora porque esqueceu a "Conchinha da Sorte" na pousada.

  • O Dog: Um Shih-tzu úmido que exala cheiro de cachorro morto e maresia.

"Se alguém der um pio, eu largo todo mundo no acostamento!", grita Jeferson, as veias do pescoço saltando como cordas de violão. O silêncio que se segue é pior que o barulho; é um silêncio carregado de ódio e vontade de chegar logo na segunda-feira para poder descansar no trabalho.


A Chegada ao Subúrbio

Quando finalmente avistam o portal do bairro, o alívio dura pouco. A vizinha, que ficou em casa regando as plantas, está com o som no talo. O portão eletrônico emperra.

Ao entrar na sala, o cheiro de casa fechada e o calor abafado do subúrbio acolhem a família. Jeferson joga as chaves na mesa e sentencia:
— Ano que vem, a gente fica na laje.

💡 O paradoxo do feriado: A gente viaja para fugir da rotina, mas volta rezando para que a rotina nos salve da nossa própria família.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 22/04/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras