

TEOLOGIA DE BOTEQUIM O sol, esse cafajeste, punha-se atrás do depósito de gás, tingindo de um vermelho-sangue o balcão de fórmica do "Bar do Adauto". Era a moldura ideal para o apocalipse de subúrbio. No centro do ringue, cercado por moscas varejeiras e o cheiro onipresente de gordura hidrogenada, travava-se a luta secular entre o Bem e o Mal. O Bem atendia pelo nome de Seu Juvenal. Um santo de varizes expostas e camisa de linho encardida, que insistia em tomar sua tônica sem gim, como se a sobriedade fosse um passaporte para o céu da Penha. Do outro lado, o Mal encarnado: o "Cunhado". Um sujeito de bigode cafajeste, camisa aberta até o umbigo exibindo uma medalhinha de ouro que nunca viu batismo, e o hálito de quem almoçou querosene. A plateia? Um coro de desdentados e adúlteros confessos, que olhavam para o fundo do copo de cerveja morna em busca de uma teologia de botequim. — A virtude é uma conta que não fecha, Juvenal! — berrou o Cunhado, batendo o copo de dose na madeira com a volúpia de um carrasco. — Você guarda o troco, não trai a patroa e o que ganha? Uma gastrite e o desprezo dos garçons! Juvenal limpou os óculos com o desespero de quem busca a visão de Deus no meio da fumaça do Derby. — O caráter, seu infeliz, é o que nos separa dos bichos! — retrucou o santo, com a voz trêmula de quem sabe que a decência é um artigo de luxo em liquidação. O Mal soltou uma gargalhada que ecoou até o confessionário mais próximo. — O bicho, meu caro, é feliz! O bicho não tem carnê do Baú! O bicho não precisa de álibi para chegar em casa às três da manhã com cheiro de perfume barato e arrependimento nenhum! O boteco silenciou. O Adauto, atrás do balcão, parou de secar o copo com o pano de prato que já fora branco na década de setenta. Todos sentiam a verdade nua e crua: a bondade de Juvenal era uma tragédia grega encenada num palco de serragem. Ele era bom por falta de opção, por medo do inferno, por uma timidez que o impedia de ser o canalha que o seu sangue clamava para ser. Já o Cunhado… ah, o Cunhado era a vida pulsante, o pecado que não pede licença. Ele era o gol de mão no último minuto, a nota de cem falsa que passa no escuro, o beijo na boca da mulher do próximo enquanto o próximo paga a rodada. — Você é um cadáver que esqueceu de deitar! — sentenciou o Mal, pedindo mais uma cachaça de alambique. Juvenal olhou para o próprio copo de água tônica. Viu ali o reflexo de sua vida murcha, de seus domingos de macarronada e silêncio. Por um segundo, a sombra de um demônio dançou em sua pupila. Ele quis gritar, quis quebrar a garrafa de Pitú na cabeça do Cunhado, quis correr para o primeiro bordel e gastar a aposentadoria em pecados de três dígitos. Mas o Bem é uma prisão sem grades. Juvenal apenas suspirou, pagou a conta — deixando os dez por cento, claro — e saiu para a noite úmida, sob o olhar vitorioso do Mal que, entre um arroto e outro, pedia um ovo colorido em conserva. No Bar do Adauto, o Bem não venceu. O Bem apenas foi para casa dormir cedo, enquanto o Mal, esse canalha irresistível, pagava a saideira para a perdição. Porque no subúrbio, minha senhora, a alma é de barro, mas a sede de ser infiel é eterna. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 22/04/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
|