

O Despertar do Brasileiro Comum O alarme toca às 5h40, mas o cansaço é de quem carregou o mundo nas costas durante o sono. Antes mesmo de colocar o café no fogo, o brasileiro médio já pagou a primeira prestação do dia ao Estado. Naquele pão francês com manteiga, uma mordida generosa é do governo; no pó de café, outra fatia some em tributos invisíveis que fariam os inconfidentes mineiros chorarem no chão da praça. Ele sai de casa desviando de buracos que já têm nome e sobrenome, mas a indignação é seletiva. No bolso, o celular exibe a notificação do "seu" político. Ele sorri. Acredita piamente que, desta vez, o "homem" vai dar um jeito. Ignora as evidências, perdoa os deslizes e defende o seu herói de estimação com a garra de quem protege um filho, mesmo que o filho em questão use terno caro pago com o suor de quem está no ponto de ônibus. Na fila do banco ou no balcão da padaria, o assunto vira escatologia divina. Ele não quer saber de metáforas ou luzes celestiais. Para ele, a promessa é literal. Jesus não virá como um sopro de paz ou uma consciência coletiva; Ele virá de sandálias, com marcas nas mãos e pele de sol. O brasileiro quer o toque, o abraço e, quem sabe, uma justiça que o leão do Imposto de Renda não oferece. Ele vive nesse equilíbrio impossível:
No fim do dia, ele encosta a cabeça no travesseiro, faz as contas que nunca batem e reza. Acredita que, se o político falhar e o imposto apertar, o Cristo em carne e osso baterá à sua porta para dividir o pão que sobrou. É a esperança teimosa de quem sobrevive de milagres e boletos. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 23/04/2026
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