SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos


O FIM DO MUNDO NA PRAÇA DA SÉ

O anjo tocou a trombeta. Mas o som não veio do céu. Veio de um megafone rouco em pleno Pátio do Colégio.

O Armagedom não é o fim. É a digestão.

Babel de Pindorama
O mundo acaba em São Paulo. Entre um café frio e uma ação da Bolsa. O céu abriu um rombo cor de goiabada. Deus desce? Não. Desce a curiosidade. Os querubins têm cara de Tarsila: pés enormes para pisar no asfalto quente e cabeças de alfinete para não pensar na inflação.

A Sentença
O Arcanjo Miguel, vestido de pierrô, lê o veredito no alto do Edifício Martinelli:
— "Só me interessa o que não é meu. Inclusive o Apocalipse."

A Grande Deglutição
Não houve pânico. Houve apetite. A humanidade, cansada de ser civilizada, resolveu devorar o Juízo Final. Engolimos as labaredas como se fossem pirilampos. Mastigamos os quatro cavaleiros:

  • O da Peste virou remédio de farmácia popular.

  • O da Guerra virou manchete de jornal de ontem.

  • O da Fome foi comido no jantar.

  • O da Morte... bem, a Morte morreu de tédio.

O Resíduo
O que sobrou? O Brasil. Sem a capa de chuva da Europa. Sem o chapéu de coco dos ingleses. Sobrou o homem nu, mas não no Éden — na Praça da Sé.

O Armagedom foi um erro de tradução. O fogo não era para queimar. Era para assar o churrasco da fraternidade bárbara. O mundo não acabou. Foi apenas devorado para que pudéssemos, finalmente, ser nós mesmos.

Roteiro. Sentimental. Do fim.

Abaixo as máscaras! O dia do juízo é o dia do banquete.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 23/04/2026
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