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"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

OURO E TRABALHO (A PEGADA HISTÓRICA)

A laje do Seu Valdir parecia o cenário de um crime contra a gastronomia. Era 21 de abril, dia de Tiradentes, e a nossa "Inconfidência Suburbana" estava mais para "Incompetência Geral".

O Carniça, que tem esse apelido não por maldade, mas pelo perfume característico de quem trabalha com reciclagem, era o nosso Joaquim Silvério dos Reis. Ele jurou que traria o "ouro" (uma caixa de latão gelada). Chegou com três garrafas de guaraná genérico que tinha gosto de xarope de ferro e uma notícia bombástica:

— O açougueiro não fatiou a picanha porque a máquina quebrou. Trouxe essa carcaça de frango aqui que é "vintage".

O feriado foi para o ralo mais rápido que água de chuva em bueiro entupido. Ficamos ali, em volta de uma churrasqueira que mais parecia um cinzeiro gigante, tentando assar o frango com o calor do ódio. Valdir, com uma camisa regata que já viu dias melhores na década de 90, olhava para o horizonte cinzento da Baixada e sentenciou:

— Tiradentes morreu enforcado, mas a gente tá morrendo é de refluxo com esse refri quente. Esquece abril. O negócio é o Primeiro de Maio!

— Isso! — gritou o Carniça, animado. — No Dia do Trabalho a gente faz o levante! Churrasco raiz, pagode e dignidade!

Foi aí que o silêncio caiu sobre a laje, interrompido apenas pelo barulho de um escapamento de CG 150 lá embaixo. O filho do Valdir, o Juninho, que passa o dia "trabalhando" no TikTok, levantou os olhos da tela e soltou a bomba:

— Que trabalho, pai? O senhor é "empreendedor de transporte por aplicativo", o Carniça é "consultor de logística de resíduos" e eu sou "influenciador de baixa renda". Quem aqui bate ponto?

O clima pesou. O Dia do Trabalho no subúrbio virou o feriado de quem não tem emprego, mas está sempre ocupado. É o dia de celebrar a arte de "dar um jeito".

— O trabalho é o de menos — rebateu Valdir, recuperando a pose. — O importante é o feriado. Se não tem ofício, a gente comemora a folga do desemprego.

E assim, entre um gole de guaraná com gosto de ferrugem e um pedaço de asa de frango que ainda estava crua por dentro, decidimos que a nossa Inconfidência seria essa: planejar a maior festa do mundo para um dia que homenageia algo que ninguém ali via há anos.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 23/04/2026
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