SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

O FANTÁSTICO TOQUE DE RECOLHER

O sol vai baixando e, com ele, a dignidade do brasileiro periférico. O domingo na quebrada não termina com um "boa noite" gentil; ele se despede com o cheiro de óleo diesel queimado e o som de um pagode que já não faz sentido, mas continua tocando porque ninguém teve coragem de desligar a caixa de som.

A essa hora, o churrasco — que começou com picanha fake e terminou com linguiça de procedência duvidosa — já virou apenas um monte de cinza e decepção. O "tiozão" do churrasco, aquele que jurava que o time dele ia ser campeão, agora está encostado no portão, com o rosto da cor de um camarão cozido e uma Havaiana que já arrebentou três vezes desde o meio-dia. Ele encara o horizonte como se buscasse o sentido da vida, mas na verdade só está tentando lembrar onde estacionou o Corsa.

O sarcasmo do domingo é silencioso. Ele se manifesta no barulho da moto dando "grau" na rua de cima, um lembrete constante de que a paz é um conceito europeu que não atravessa a ponte. É a trilha sonora perfeita para quem está sentado no sofá, olhando para o teto e calculando quantos minutos de sono restam antes do despertador tocar aquela música satânica às cinco da manhã.

E tem a trilha sonora da TV. A vinheta do Fantástico é o hino nacional do desespero. É o toque de recolher que avisa: "Acabou a palhaçada, Cinderela. O sapatinho de cristal virou bota de bico de aço e o seu castelo é um ônibus lotado na Segunda-Feira".

Na geladeira, o resto da maionese que ficou fora da geladeira por quatro horas desafia a resistência do seu sistema digestivo. Você olha para ela, ela olha para você. É uma metáfora para a sua carreira profissional: está ali, meio azeda, mas é o que tem pra hoje.

O domingo na periferia termina assim: com o portão sendo trancado com três voltas de chave, o som do vizinho finalmente baixando para um volume que apenas incomoda (em vez de ensurdecer) e a aceitação heroica de que amanhã seremos todos peças fundamentais na engrenagem do capitalismo — ou, pelo menos, estaremos todos xingando o motorista do ônibus juntos.

Boa sorte a todos os envolvidos. A segunda-feira não tem senso de humor.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 26/04/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras