

-O MANIFESTO DA CERVEJA GELADA O 1º de Maio no Boteco do Wilson não era um feriado, era um evento sísmico onde o suor do samba brotava mais rápido que o colarinho do chope. Logo cedo, o cheiro de gordura queimada no churrasco subia como incenso para os deuses da malandragem, enquanto Jurandir, empunhando uma coxa de frango como se fosse um manifesto, discursava sobre a mais-valia entre um gole e outro de uma cerveja estupidamente gelada. O ambiente era um caldeirão de testosterona e política, onde a reforma tributária era resolvida no grito e o pandeiro ditava o ritmo das batidas do coração de Tião, que suava frio não pelo calor da brasa, mas pelo medo de ser flagrado. No canto mais escuro, perto da máquina de música, Valéria desfilava seu magnetismo proibido, provocando um silêncio reverencial que interrompia até os debates mais acalorados sobre o direito do trabalhador. A traição ali pairava no ar como o mormaço da tarde; Tião trocava olhares cúmplices com a vizinha enquanto a esposa legítima, em casa, achava que ele lutava pela classe operária. Entre uma estrofe de Cartola e um drible na vigilância alheia, Dona Zuleide, a beata que ninguém dava nada, fechava os olhos e entrava em transe com o solo do cavaquinho, experimentando um orgasmo enrustido que mascarava como "fervor religioso", apertando o copo de lagoinha com uma força suspeita. No fim das contas, entre a fumaça da picanha e o delírio do samba, o Boteco do Wilson provava que o único trabalho que o brasileiro levava a sério naquele dia era o de sobreviver à mistura explosiva de desejo, ideologia e ressaca. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 26/04/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
|