

LUMINIS: O HORIZONTE SEM SOMBRA O silêncio de Luminis era absoluto, mas não era o silêncio do vácuo; era o silêncio da concordância. Elias caminhava pela Praça da Alvorada às três da manhã. Não havia guardas, pois não havia crime. As portas das casas não possuíam trancas. Se ele sentisse fome, poderia entrar em qualquer cozinha e seria recebido com um sorriso e um banquete, independentemente de quem fosse. Em Luminis, o Grande Alinhamento havia erradicado a maldade. A política era um mosaico de vozes que se ouviam com reverência. As religiões eram fios de uma mesma tapeçaria, celebradas em templos compartilhados. O amor era livre, fluido e sagrado em todas as suas formas. O respeito não era uma lei, era o oxigênio. Elias sentou-se em um banco de quartzo. Ao seu lado, um homem de túnica açafrão meditava. Elias sabia que ele era um Neoteísta, enquanto ele próprio era um niilista convicto. Naquele mundo, essa divergência era a base da amizade deles. — O sol vai nascer lindo hoje, Elias — disse o homem, sem abrir os olhos. — Você sente a luz? — Sinto o calor — respondeu Elias, com a voz embargada. — Mas não sinto nada além disso. Elias era um "Dissonante". Ele sofria de uma condição rara: a capacidade de sentir tédio. No mundo do Bem Absoluto, a falta de atrito havia gerado uma inércia espiritual. Onde não há sombra, o olho acaba por cegar pela claridade constante. Ele caminhou até o penhasco que bordejava a cidade. Lá embaixo, o mar batia contra as rochas em um ritmo perfeito. Elias pensou em gritar um insulto, qualquer palavra cruel que pudesse macular a pureza do ar. Mas sua mente não conseguia formular o ódio. O sistema educacional, a biotecnologia e a cultura haviam podado as arestas da psique humana. Ele olhou para as mãos. Eram mãos que nunca haviam fechado um punho. Ele nunca sentira o gosto do sangue em uma briga, nem a adrenalina da inveja, nem o fogo de uma paixão proibida — porque nada era proibido. A liberdade total havia se tornado uma prisão de veludo. Sem o mal para contrastar, o bem já não era uma virtude; era apenas o estado padrão. As artes haviam estagnado, pois não havia dor para expressar. A música era harmoniosa demais, sem as notas menores que fazem o coração doer. Elias viu um casal passar. Eles se amavam profundamente, e a sociedade os celebrava. Ele sentiu uma lágrima escorrer. Não era tristeza, era a angústia da perfeição. Ele percebeu que Luminis era o paraíso que a humanidade sempre pediu, mas que o humano — aquela criatura caótica e imperfeita — não fora feito para habitar. O respeito total eliminara o debate; a aceitação total eliminara a identidade. Todos eram tão maravilhosamente únicos que acabavam sendo todos iguais na sua unicidade. Elias se aproximou da borda do abismo. Ele não queria morrer, ele só queria sentir algo que não fosse bom. Ele queria o erro. Ele queria o peso de uma escolha que tivesse uma consequência terrível, pois só assim a escolha teria valor real. Mas, ao olhar para trás, viu o homem da túnica açafrão vindo em sua direção. O homem não o impediria com força, nem o julgaria. Ele apenas o abraçaria e diria que entendia sua dor, que respeitava sua angústia e que o amava por ser quem era. E foi naquele momento, sob o abraço acolhedor da bondade universal, que Elias percebeu a verdadeira face daquela distopia: em um mundo onde tudo é sagrado, nada mais é importante. Ele fechou os olhos e sorriu, um sorriso vazio e perfeitamente aceito, enquanto o sol de Luminis nascia mais uma vez, implacavelmente radiante. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 27/04/2026
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