SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

O EQUILÍBRIO DA FENDA

Elias vivia em uma cidade onde as cores haviam desistido. Os prédios eram blocos de concreto cinza e os relógios ditavam o ritmo de cada respiração. Ele trabalhava no "Departamento de Fatos", catalogando parafusos e numerando sombras. Para Elias, a realidade era uma linha reta e implacável.

Certa noite, ao voltar para casa, Elias encontrou um buraco na calçada que não deveria estar lá. Não era um buraco comum; dele brotava uma luz cor de âmbar que cheirava a maresia e bibliotecas antigas. Contra todas as regras do Departamento, ele se inclinou e olhou.

Do outro lado, não havia calçada. Havia um oceano feito de tinta de caneta-tinteiro, onde navios de papel dobrado navegavam ao sabor de suspiros. Criaturas com asas de vitral riscavam o céu roxo. Era a Fantasia, pura e caótica, transbordando debaixo do cimento.

Elias sentiu uma vontade avassaladora de pular. Ele queria esquecer os parafusos, as planilhas e a gravidade. Mas, ao tocar a luz, percebeu algo terrível: se entrasse totalmente naquele mundo, ele se tornaria papel. Seus ossos virariam tinta e suas memórias seriam apenas rimas. Sem a solidez do seu mundo cinza, ele deixaria de existir como homem.

Ele recuou, assustado. Olhou para as mãos calejadas e depois para o oceano de tinta. Foi então que entendeu.

Elias não pulou, mas também não fechou o buraco. Ele sentou-se à beira da fenda, pegou um dos seus relatórios cinzentos e começou a dobrar um barquinho. Colocou o papel na luz e viu o fato se transformar em aventura. O cinza do papel absorveu o brilho âmbar, tornando-se algo novo.

Naquela noite, Elias voltou para o concreto, mas levou o cheiro da maresia nas roupas. Ele agora caminhava na linha reta do mundo real, mas seus olhos buscavam as frestas. Ele precisava do chão duro para não se dissolver, mas precisava da luz do buraco para ter um motivo para caminhar sobre ele.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 29/04/2026
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