SÓ A VERDADE NOS LIBERTARÁ

"Somos anjos perdidos. Asas mortas no chão desde a primeira audição da palavra impossível" F. Rocha

Textos

O ADULTÉRIO DAS CONTAS E A PÁTRIA DE CHINELO

A fila do pão, meu caro, é o maior anfiteatro da nossa derrota. Lá está ele, o brasileiro médio, esse herói de tragédia de subúrbio, com a chinela gasta e os olhos fixos num horizonte que teima em ser apenas uma parede de chapisco. Ele espera. Espera o "milagre" com a fé devota de quem aguarda a ressurreição da carne, ou ao menos a queda da taxa de juros.

Vivemos num delírio coletivo, uma ópera bufa encenada num cenário de terra arrasada. O brasileiro acorda e toma o café ralo da esperança, enquanto a TV cospe números que ele não entende, mas que sente, como uma bofetada, no preço do patinho. É uma neurose de classe média: ele quer o iPhone, mas o que ele tem é o carnê das Casas Bahia, esse testamento de uma alma que se vendeu em dez vezes sem juros.

E aí entra o cidadão com sua luneta viciada em flagrantes de alcova e pecado. Porque a espera pelo milagre é, no fundo, um adultério com a realidade. O brasileiro médio trai a sua própria miséria com a fantasia de um PIB nababesco. Ele olha para o gráfico da inflação como quem olha para a vizinha de bobs: com um desejo proibido e a certeza de que vai se dar mal.

É a "estética da carência". O sujeito veste a camisa da seleção — já meio amarelada de suor e frustração — e vai para o churrasco de gato acreditar que "agora vai". Não vai. O milagre econômico é a nossa Grande Prostituta: todos dizem que ela vem, todos juram que a viram passar na esquina da Avenida Paulista, mas ela só se entrega aos banqueiros, enquanto nós ficamos aqui, no sereno, chupando o osso de uma pátria que nos ignora.

Vivemos o luto de uma riqueza que nunca tivemos. É o velório de um futuro que nasceu morto, mas que a gente insiste em maquiar para o enterro. O milagre não acontece porque, no Brasil, a economia não é uma ciência, é um vício. E o brasileiro médio, coitado, é o último a saber que a banca sempre ganha.

Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 13/05/2026
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