

O DESPERDÍCIO DO AFETO Neste breve intervalo entre o sopro e o silêncio, habitamos um paradoxo: carregamos uma alma que não conhece fim em um invólucro que mal suporta o peso de algumas décadas. Somos a eternidade tentando caber em um relógio de pulso. A tragédia da condição humana não reside na brevidade da carne — pois o que é finito é, por natureza, precioso — mas na arrogância com que desperdiçamos nossa única moeda de troca: o agora. É estarrecedor notar que, embora sejamos "cinzas em espera", vivemos como se tivéssemos séculos para estocar mágoas e milênios para adiar abraços. A ausência do perdão e da concórdia entre nós é, na verdade, um erro de perspectiva. O ego se comporta como se fosse imortal, alimentando conflitos que não sobreviverão à próxima estação. O ódio é um investimento pesado demais para quem tem uma estadia tão curta. Quando negamos a paciência ao outro, esquecemos que estamos ambos no mesmo barco que naufraga lentamente em direção ao infinito. A alma, em sua imortalidade, não busca o acúmulo de vitórias sobre o próximo, mas a expansão através do outro. Se o corpo é o palco onde a eternidade ensaia a sua luz, por que insistimos em interpretar personagens tão sombrios? Perdoar não é um ato de caridade com o outro, é um ato de inteligência espiritual. É reconhecer que, diante da vastidão do tempo, qualquer ofensa é minúscula. Amar é a única forma de subverter a nossa finitude; pois, enquanto o corpo se desfaz em pó, o rastro de afeto que deixamos é a única parte de nós que já aprendeu a ser eterna enquanto ainda caminha pelo chão. Que possamos olhar para o outro não como um adversário de momento, mas como um colega de exílio, partilhando a mesma fragilidade e a mesma esperança de retorno. Mendes Neto
Enviado por Mendes Neto em 13/05/2026
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